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às vezes

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você chove em mim

e eu deságuo em você.

A história do encontro entre um menino e um baobá

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Um dia, em mais uma de suas aventuras, o menino resolveu que queria ser explorador, desbravar o universo e enfrentar o desconhecido. Achava que assim, além de conhecer novos e incríveis lugares, perderia todos os medos que tinha.

Em uma de suas viagens, o menino chegou à um planeta azul, com muita água. Então ele supôs que deveria se chamar planeta Água, mas depois descobriu que era o planeta Terra.

A Terra era enorme e feita de água, areia, florestas, montanhas, e claro, terra.

O menino se encantou com a grande diversidade da natureza, tantos seres, tantas cores. Ele conhecia algumas árvores mas não todas e elas eram muitas. Sempre ouvira falar sobre os baobás, imensas árvores centenárias, algumas milenares. Ele cresceu temendo os baobás pois lhe disseram que sua semente era uma praga e que se um só baobá crescesse, poderia tudo destruir, já que ele morava em um planeta muito pequeno.

Um dia, o menino encontrou uma árvore gigante como nunca tinha visto. O tamanho e o formato o impressionaram e atraíram. Ele se aproximou, sentindo-se uma formiguinha diante daquela imensidão. Era um baobá milenar, detentor de poderes e de um grande tesouro. Ele podia sentir a intenção e presença de quem se aproximava e acordou de seu profundo sono.

-Olá.

-Quem disse isso? – perguntou o garoto.

-Eu, o baobá. Você não veio me ver?

-Como você sabe? Vim ver de perto como você é grande. Não sabia que era um baobá e nem que você podia falar.

-Sim, e também sinto. Principalmente os puros de coração.

-Mas por que você é tão grande e diferente das outras árvores?

-Porque sou muito antiga, milenar. Fui a primeira árvore feita pelo criador.

-O que é milenar?

-Vem de milênio que quer dizer mil anos.

-Uaaau!! Mas por que parece que você fala por baixo e não por cima?! E por que seus galhos parecem raízes?

-Quando eu fui criada, era muito curiosa e fazia muitas perguntas como você. Mas um dia o criador se irritou e me virou de ponta cabeça, me deixando com as raízes para cima e com a boca enterrada. Mas, felizmente o tempo passou e eu reaprendi a falar mesmo assim.

-É isso que acontece com quem faz muitas perguntas?

-Não, não necessariamente, mas aconteceu comigo.

-E por que você sente os puros de coração como você diz?

-Por ter sido a primeira árvore criada, ganhei alguns “poderes”.

-Como falar!

-Sim! Mas nem todos conseguem ouvir.

-E o que mais?

-Um tesouro! Isso além dos meus frutos deliciosos, minha capacidade de armazenar grandes quantidades de água e das substâncias que possuo, com as quais as pessoas fazem remédios. Ah, e ainda depois de oca, posso servir de abrigo.

-Mas como? Você é vazia?

-Você quer ver?

Então, o baobá abriu um pedaço de sua casca e mostrou ao menino o grande tesouro: seu coração. Foi uma das coisas mais belas que o garoto já tinha visto.

Encantado, o menino queria abraçar o baobá, agora seu amigo, com seus pequenos bracinhos. Mas por menor que fosse o menino, isso não importava, pois o baobá sentia-se abraçado por inteiro.

Desde esse dia, o garoto nunca mais temeu os baobás, pois entendeu que eles não eram maus por serem grandes, apenas precisavam de mais espaço para crescer do que as outras árvores.

O menino prosseguiu sua viagem levando no peito um novo amigo e uma certeza: gostava mais do vazio do que do cheio. Falava que os vazios são maiores e até infinitos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Chuva ácida.

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Cuspi todas as palavras que me colocaram na boca. Uma a uma. Presas na garganta, enfiadas goela adentro. Uma a uma.

Uma torrente de palavras molhadas gritadas raivosas ensurdecedoras. Uma enxurrada de coisas que entalavam-se em mim, em minhas fronteiras, labirintos e quaisquer espaços – aparentemente vazios. Sem ter pra onde transbordar, tiveram que sair. E foi pela boca. Pela boca vermelha e ácida. Pela boca que xinga e beija e depois ri. Pela boca que se cala, que se fecha em resiliência, no mais profundo silêncio.

Sobras de julho.

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amanda 7 agosto 2013

Julho passou cinza, deixando um negro rastro de fumaça no ar.

Julho deixou seus arranhões em mim, cobriu-me de rachaduras e dores que gritam por dentro.

Pegou-me nos braços e do abraço fez-se sufoco, um estrangular sem saídas pela tangente.

Julho beijou-me os olhos, depois cuspiu-me sem pudores.

Dos dias mornos, fez-se a geada. Da apatia, a angústia.

Do riso fez-se a loucura.

Julho jogou-me cinzas nos olhos e botou-me nua a menos 2ºC. Riu-se, lambuzou-se e partiu.

E de mim, nada restou.

Aponta pra fé e rema.

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tira amanda 2 julho

Rema, nem que seja na direção contrária, nem que seja sem rumo, porque não se pode parar. Não afunde, jamais.

Não deixa que a correnteza te leve sem que você queira ir. Lute com as forças da natureza, porque você é uma delas.  Não te deixes acostumar com as coisas que se vão, porque memórias são potenciais suicidas.

E quando nada mais restar, abraça o teu cansaço, e que o teu corpo seja teu melhor pouso. Que a solidão seja tua melhor amiga, para que não conheças o outro lado e não entendas – nunca – o que é a saudade.

12 756,2 quilômetros.

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tira amanda 3

Com os meus braços eu abraçaria até trancar a respiração.
E não derramaria mais tristezas, nem deitaria amores partidos em camas mal feitas.

Dobraria os segundos da tua existência, te fazendo eterno. Engoliria as minhas palavras escassas, afogando-as no mar da minha saliva e te daria o meu silêncio, coberto de flores. Te alimentaria apenas de sorrisos, sempre secos, sem nunca deixar que lágrimas os salgassem. Tudo seria doce e nos meus braços caberia o mundo.

Todo palco é céu.

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amanda2

A primeira vez que tentei caminhar no ar, eu nada esperava. Nem gravidade, impacto, asas.

A primeira vez que tentei voar foi após descobrir que a vida não bastava. Que manter os pés no chão, o corpo vertical e a alma vazia não me fariam nada; não doeria, não sangraria, mas também não me faria dançar ou abraçar o mundo.

Depois, quando tentei tocar as estrelas, descobri o quanto eu era pequena. Percebi que escadas não me ajudariam, mas ser gigante também não era um bom plano. 

De tudo, fui entendendo que ser o que se é não é o bastante quando não se é nada. A inexistência me assustava porque sempre me olhava no fundo dos olhos e dizia “bom dia”‘, com ar sereno, um ar de “bem, o que é que se pode fazer afinal?!”. Eu emudecia, engolindo as minhas palavras ignorantes e humanas. Olhava pro lado, matando as minhas memórias e tentando esquecer que não existir é mais comum do que parece.

 

Mas um dia, as memórias não puderam mais morrer ou fui eu que não consegui mais matá-las?

Elas foram se acumulando, petrificando, criando camadas, casas, cômodos dentro de mim. 

Não era mais possível ignorar. Era preciso ser, e antes mesmo que qualquer conexão de neurônios e pensamentos fosse ativada, já se era. Eu era dona de uma teimosa quase existência. E fui sendo, esquecendo de esquecer…

Foi assim que subi até o ponto mais alto, de onde só se podia ver escuridão, mas de cima o medo não existe, ele não consegue chegar tão longe, tão alto; o medo tem medo de altura.

A vida não bastava, era preciso voar, dar o primeiro passo fora da terra firme, caminhar no invisível. Existir era queda livre, o salto no escuro profundo, no desconhecido. 

Jamais descobri se desde aquele primeiro passo, aprendi a voar ou se continuo em queda livre, em direção ao infinito.  

Às estrelas ou ao abismo.