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sem ponto final

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Estou descobrindo a minha voz

vorazmente

Vozes, muitas. Minhas mas que não existiriam se muitas outras não tivessem aberto o caminho com seus cantos, gritos e palavras.

Para que agora eu pudesse estar aqui

tecendo palavras

Elas todas inventadas para nomear ordenar e fazer caber o sentido que não cabe

Estou descobrindo que aquilo que brota nas entranhas e dança no meu corpo é voz querendo sair pra não virar nó. Para que não entale na garganta e doa. Doa além do habitual.

Estou apalpando os sons das palavras da minha voz

Sendo o sinal e também, o ruído

Descobrindo a beleza do caos que me fez (e que eu quero fazer também)

Estou parindo a minha voz

Aquilo que vim para dizer

e que veio para ser

dito

feito

sentido

para não calar

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cambiante

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sigo caminhante

na viagem

cambiante

que é passagem

de um piscar de olhos

vou descobrindo o trajeto

deixando marcas

e abrindo caminhos

peço licença e desculpas

pelo meu atropelo

sou dada a tropeços

distraída admirando a beleza

do amor

da dor

e sigo

desejando que meus passos

encontrem e sejam

o caminho

do mais puro

a r d o r

ampulheta

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não sei como poderia prever

e ver o amanhã

se tão pouco sei

sobre o agora

isso

que me escapa

vive e morre

a cada letra desenhada

a cada e x p i r a d a

e me pego sempre atrasada

tentando capturar

o que perdi

o que me falta

o que não vi

o tempo desperdiçado

que percebo despedaçado

irrecuperável

e ao voltar ao agora

com as mãos vazias

sinto o cansaço das tentativas

de tudo que quis

agarrar

afagar

e não deixar

esc a p ar

vermelho despertar

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Não sei quantas vezes nasci

e pari

mulher

o caminho do meio

vermelho

o centro da Terra

vermelho

a fenda das eras

quantas vezes vim 

para conhecer 

quantas vezes o véu caiu

reconhecer

quantas ainda por vir 

compreender

pra que eu possa descobrir

despertar

e relembrar a força da natureza que me habita

dos elementos que trago em mim

do caminho sagrado esquecido

mas jamais extinto

que pulsa nas entranhas 

que verte do ventre

para ser recordado

que meus pés descalços encontrem força em solo fértil ou em palco que já foi árvore

sempre guiados pela intuição Deusa-Mãe-Vó

que sejam livres meu corpo espírito e voz 

como nos tempos em que corríamos nuas

e não temíamos o fogo

pois somos também

que sejam flores os meus passos

e raízes com asas os meus pés

que brotem cura e amor da alquimia em minhas mãos

e que meu canto possa ecoar

e honrar

a todas que vieram antes de mim

e a Mãe-Terra fértil, colo de mãe Gaia, Pachamama

reverencio e agradeço por me receber e me dar tanto

que em todos os caminhos, planos e eras

inspirem, rejam e guiem 

a mim e a todas que virão

que assim seja

pois assim é

e assim será

antes de tudo

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No princípio                                                  

                              nada 

e do caos

Princípia

O nada, inexplicável. Quase intangível. O nada não se explica, não pede porquê, licença, desculpas, não quer ser pensado.

Houve desde

                                 não se sabe                                                                                                                                                           apenas   

                                                                                                            existe 

O caos se instala sobre o nada, pressionando-o contra as paredes da existência, implodindo e explodindo todos os momentos que se querem agora. Que se fazem agora. O caos é real. Primitivo e presente. Sempre presente. Não se pode apalpá-lo. O caos, que assim como o nada não pede licença, só pode ser sentido através de si mesmo. Em tudo que é caótico e quente. E ferve. É possível senti-lo através das batidas. Do corpo, do som, da terra. Das potestades que pulsam nas origens.

Pulsam até o ápice, até que não haja possibilidade de ordem, mas de condensação, grito, furor, manifestação.  Até o momento em que o vermelho ecoe em meio ao caos, nascendo divinA, e a terra apenas respire.

Respirem. 

Uma deusa nunca nasce em silêncio. Ela molda a existência das palavras, dos sentidos, dos gritos e ânsias vindos das entranhas. Grita, ruge, uiva e ri. Se faz ouvir com e das entranhas. 

Vida  

                        que           nasce  

                                                                    crua      

                                                                                             nua

                                                                                                         

                                                                                                a vida e o caos

                                                                                                                       a vida é

e caminham juntos, diálogo que parece apenas ruído. Ora grita o caos; ora grita a vida. E quando juntos, o divino sempre se manifesta. É assim, desde sempre.

Os deuses não conhecem a solidão.

Deusas não conhecem a solidão. Criam-se umas às outras, dão vida à vida que lhe deram. Brigam, lutam, amam, odeiam, sangram, bebem, gozam. Dão luz vida e morte ao vermelho que lhes saiu das entranhas mais profundas. Criam o efêmero, que já nasce com o peso da morte nas costas. Mas que também é vivo. É carne, sangue, cerne. Osso, pelo, cabelo, fúria. E alma. Almas que se acariciam e que descobrem o mundo a cada respiro.  

Que seja possível tocar o eterno.  

Evoé!

escrevo com lágrimas e sem sangue nas mãos

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Os estilhaços no chão confirmam que já não existe mais bolha possível. Não há muros ou terrenos seguros. O ar que (ainda) respiramos é tóxico, como nunca. Não sabemos de onde vem o tiro, o campo está minado nessa terra que era mãe e se vê traída. Subtraída por filhos doentes, cegos e sem memória.

O que nos une? Não há mais o lado de cá. Então o que temos em comum? O sangue de todos nós é vermelho. O de muitos ferve.  Enquanto o de outros corre.

 

 

b r e u

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teu olhar atravessou

o espaço e o tempo

pra me encontrar

e desconsertar

e ainda que aqueles dias

estejam no passado

e os lençóis lavados

já tenham secado

a memória daquele frame

ainda me rouba o ar

e me faz desejar

mais instantes

pra deitar meus olhos e segredos

na curva do teu peito

e de novo suspender o tempo

pra então saltar

de um trampolim

sem paraquedas

e sem ter fim

me entregar

ao abismo mais bonito

e mais brilhante que já vi

o breu

dos olhos

teus