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Arquivo do autor:Amanda

Canto

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O silêncio que me cala é o que me foi dado.

E ainda que eu tenha voz, canto só pra mim. Não por falta de coragem, talvez por falta de ar. Talvez por saber que meu canto não pode alcançar teus ouvidos cansados e surdos.

Mas vou rasgar o tempo, o verbo, as distâncias, os laços e esse nó.

Antes que ele entale e me sufoque

e não haja mais ar pra queimar

pra cantar

pra existir

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De s atar

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De todas as minhas palavras orquestradas, sobraram as que guardei pra te dar.

As outras todas pari e botei no mundo.

As que ficaram foram se abarrotando ainda que gritassem para não serem esquecidas. Gritaram até perder a voz. Até que mudas, se transformaram em nó.

Nó que passeava pelo meu corpo como os teus arrepios costumavam fazer. Um nó que pulsava e se agitava e às vezes parecia pesar mais do que a realidade.

Nó que eu tento distrair pra que não entale na garganta, pra que não saia pela boca, que não me escape pelos olhos. Porque eu sei que se sair de mim, terei de encará-lo e desatá-lo pouco a pouco, até que não haja vestígios. Até que se esqueça. Até que outros nós se façam.

O que te mantém vivo

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tem o tamanho do seu punho

e pulsa incessante e

inescrutável

você chama de pulsar

o que eu chamo de bater

sístoles e diástoles em compassos distorcidos

e se não bater não há paz ou calmaria

apenas o silencio da ausência de vida

 

 

músculo que bombeia sangue

 

se essa dança parar

e todo ar se esvair

quando não mais pulsar

e só restar partir

 

Nu peito

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É difícil dizer em que momento as palavras que moravam em mim resolveram fugir. Ainda é difícil dizer se de fato fugiram, ou se apenas esconderam-se. Pode ser que algumas tenham morrido no caminho, enquanto outras se uniram para se transformarem.

Camuflaram-se em dança e torpor, vertigem, emoção e calor. A ponto de o corpo inchar  e a pele quase rasgar.

Latências terremotos vibrações explosões batimentos ânsias peito arfando muito pouco ar

Uma imensidão vermelha de vida quase morte mais pesada que o mundo.

 

às vezes

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você chove em mim

e eu deságuo em você.

A história do encontro entre um menino e um baobá

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Um dia, em mais uma de suas aventuras, o menino resolveu que queria ser explorador, desbravar o universo e enfrentar o desconhecido. Achava que assim, além de conhecer novos e incríveis lugares, perderia todos os medos que tinha.

Em uma de suas viagens, o menino chegou à um planeta azul, com muita água. Então ele supôs que deveria se chamar planeta Água, mas depois descobriu que era o planeta Terra.

A Terra era enorme e feita de água, areia, florestas, montanhas, e claro, terra.

O menino se encantou com a grande diversidade da natureza, tantos seres, tantas cores. Ele conhecia algumas árvores mas não todas e elas eram muitas. Sempre ouvira falar sobre os baobás, imensas árvores centenárias, algumas milenares. Ele cresceu temendo os baobás pois lhe disseram que sua semente era uma praga e que se um só baobá crescesse, poderia tudo destruir, já que ele morava em um planeta muito pequeno.

Um dia, o menino encontrou uma árvore gigante como nunca tinha visto. O tamanho e o formato o impressionaram e atraíram. Ele se aproximou, sentindo-se uma formiguinha diante daquela imensidão. Era um baobá milenar, detentor de poderes e de um grande tesouro. Ele podia sentir a intenção e presença de quem se aproximava e acordou de seu profundo sono.

-Olá.

-Quem disse isso? – perguntou o garoto.

-Eu, o baobá. Você não veio me ver?

-Como você sabe? Vim ver de perto como você é grande. Não sabia que era um baobá e nem que você podia falar.

-Sim, e também sinto. Principalmente os puros de coração.

-Mas por que você é tão grande e diferente das outras árvores?

-Porque sou muito antiga, milenar. Fui a primeira árvore feita pelo criador.

-O que é milenar?

-Vem de milênio que quer dizer mil anos.

-Uaaau!! Mas por que parece que você fala por baixo e não por cima?! E por que seus galhos parecem raízes?

-Quando eu fui criada, era muito curiosa e fazia muitas perguntas como você. Mas um dia o criador se irritou e me virou de ponta cabeça, me deixando com as raízes para cima e com a boca enterrada. Mas, felizmente o tempo passou e eu reaprendi a falar mesmo assim.

-É isso que acontece com quem faz muitas perguntas?

-Não, não necessariamente, mas aconteceu comigo.

-E por que você sente os puros de coração como você diz?

-Por ter sido a primeira árvore criada, ganhei alguns “poderes”.

-Como falar!

-Sim! Mas nem todos conseguem ouvir.

-E o que mais?

-Um tesouro! Isso além dos meus frutos deliciosos, minha capacidade de armazenar grandes quantidades de água e das substâncias que possuo, com as quais as pessoas fazem remédios. Ah, e ainda depois de oca, posso servir de abrigo.

-Mas como? Você é vazia?

-Você quer ver?

Então, o baobá abriu um pedaço de sua casca e mostrou ao menino o grande tesouro: seu coração. Foi uma das coisas mais belas que o garoto já tinha visto.

Encantado, o menino queria abraçar o baobá, agora seu amigo, com seus pequenos bracinhos. Mas por menor que fosse o menino, isso não importava, pois o baobá sentia-se abraçado por inteiro.

Desde esse dia, o garoto nunca mais temeu os baobás, pois entendeu que eles não eram maus por serem grandes, apenas precisavam de mais espaço para crescer do que as outras árvores.

O menino prosseguiu sua viagem levando no peito um novo amigo e uma certeza: gostava mais do vazio do que do cheio. Falava que os vazios são maiores e até infinitos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Chuva ácida.

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Cuspi todas as palavras que me colocaram na boca. Uma a uma. Presas na garganta, enfiadas goela adentro. Uma a uma.

Uma torrente de palavras molhadas gritadas raivosas ensurdecedoras. Uma enxurrada de coisas que entalavam-se em mim, em minhas fronteiras, labirintos e quaisquer espaços – aparentemente vazios. Sem ter pra onde transbordar, tiveram que sair. E foi pela boca. Pela boca vermelha e ácida. Pela boca que xinga e beija e depois ri. Pela boca que se cala, que se fecha em resiliência, no mais profundo silêncio.