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I dug a hole in the ground…

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amanda 1 maio 2013 pintado

“Good luck exploring the infinite abyss.”
Garden State
 

Malas feitas e coração pulando no peito. Alguns adeuses e muitas incertezas. Parto.

Eu andei pelos caminhos firmes de concreto, falei a língua dos homens e tentei falar a dos deuses, tentei desvendar enigmas sagrados e compreender o sentido das coisas. Passei pelas pessoas e pela falta de humanidade, por batalhas perdidas e medalhas sem heróis, pelo dinheiro e pela falta dele, pela ordem aparente que instaurava o caos. Caminhei por dias e anos. E cheguei. 

Sem espelhos, parâmetros ou certezas, tudo que restou da minha bagagem fui eu. Sobras e retalhos de mim.

Fui até a beira, me debruçando sobre a escuridão. Olhei no olho do abismo, por mais tempo do que consigo recordar. Mais tempo do que posso dizer. Quando não pude mais suportar, disse impropérios, palavrões, injúrias e tudo que me atravessava.

Os impulsos, eu deixei de conter. Gritando a ponto de perder a voz, inventei línguas pra dizer aquilo que se sente e não cabe nas palavras dos dicionários, nas línguas humanas. Cantei maldições e quis engolir o abismo, dona de uma desesperada tolice.

As palavras já não me pertenciam, como nada e tudo não podia me pertencer. Os conceitos, o certo, o errado, as convenções. Nada me pertencia, nada me convencia.

O vento gritava comigo e quase me empurrava pra dentro do breu profundo. Mas eu só arredaria o pé se fosse pra matar o que me olhava, o que eu tanto queria engolir mas acabava sempre engolida por ele. 

Encarei os olhos do mundo e os olhos do medo e nada, nada se compara ao olho do abismo que ainda agora me encara. Há muito perdi a coragem de encará-lo de volta, então apenas permaneço a seu lado e quando muito desço meus olhos na escuridão, por meio segundo. Foi assim que descobri que perto do abismo a gente é abissal, apenas. É breu, é sombra, é barulho demais ou silêncio demais, é loucura sem cura, caos ou catarse. 

Acontece que depois das coisas ditas e não ditas, não pude partir. O abismo me olha e me engole lentamente. E eu só não peço socorro pra não ser engolida pelo mundo.

“Abismo que cavaste com teus pés.”
Cartola
 
(a partir de agora, os textos do blog contarão com ilustrações da multiartista Yaya Sugayama :)

Noite.

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Dos amores mais profundos, a ausência.

Os olhos cansados perseguem a loucura da concreto, a intolerância de uma cidade fria e provinciana. Os pés caminham aos trancos, rumo a bares sujos demais ou puros demais, nunca abertos na segunda-feira. Os lábios buscam o beijo ácido de qualquer liberdade, mas só encontram o álcool, velho companheiro de tantas andanças. As mãos seguram o cigarro, o isqueiro, o copo, o dinheiro amassado, na esperança de acharem qualquer paz. Sempre bêbados, os abraços, tortos e cambaleantes procuram aconchego em outros abraços.

O corpo entorpecido, a alma embriagada e nada. Nada que nos console.

La petite mort…

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A dor dentro de mim é um acúmulo sólido de ódio.
Raiva do meu corpo por me trair. Raiva do meu mundo, e dos meus sonhos, e da minha vida, por não durar para sempre.

 

Sinal e Ruído – Neil Gaiman e Dave McKean

Nothingness.

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Nada foi o que eu vi quando olhei pro lado.

Foi o que eu vi no fundo dos olhos de tanta gente que passava, de gente que falava, de gente que ficava mesmo tendo vontade de ir.

Eu que rezava todas as noites e pedia coisas tão simples que nem mesmo deus imagina. Eu que pedia a qualquer deus pra não ficar sozinha.

E ria, bebia, cantava, dançava com venda nos olhos. E caminhava pela vida como se fosse feliz.

Alegrava as festas e ria de mim mesma, mirando olhos-espelhos que sempre me sorriam de volta. E seguia, como bicho, como deus, como qualquer coisa que não teme o amanhã.

Eu que olhava pra própria sombra sem nada desconfiar. Eu que sorria pro mundo sem precisar de motivo. Eu, que fingia que alegria era felicidade e seguia… Cega, vagando pelo vale das ilusões.

Que bebia para que a embriaguez durasse pra sempre, sem saber da ressaca que o amanhã guarda.

Eu, que não tinha medo de ser feliz, nada mais achei.

E num gole de realidade, vi no fundo dos meus olhos, além do nada, uma fagulha de solidão a me acompanhar.

Omni.

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Que fosse possível acordar com a certeza de que a tristeza que a gente tem qualquer dia vai se acabar.

E volta e meia eu me pego sentada, fazendo sala pra esse fantasma da existência humana. E me pego falando assim, como se toda existência humana me coubesse, como se de alguma forma eu fosse onisciente. Faço sala, sirvo cafés, sorrisos, aspirinas, entorpecentes e fugas. Saídas de emergência pra todos os lados. Ela continua ali, parada, me encarando, sem qualquer sinal de partida, ou palavras, apenas jogos psicológicos. Sempre igual: ela chega, serenamente, senta-se e me olha longamente. Não diz que sim, nem que não às coisas que tento lhe oferecer.

E lá se vão horas, dias, às vezes semanas de espera, até que ela decida partir. Enquanto isso, eu devaneio, me debato e vivo de cafés ruins e noites mal dormidas. Esquecendo dos sorrisos que ficaram pra depois, da chuva que eu deixei de dançar e de todo e qualquer sopro de alegria.

Um belo dia, ao despertar de uma destas noites mal dormidas, passo os olhos cansados pela sala e por toda a casa. Ela se foi, de viagem pra algum canto, atrás de outras salas e existências. Mas ela sempre volta.

Até lá, me permito dizer, ainda que de longe: bom dia, tristeza.

Queda livre.

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Eu corria os dedos pelo teu corpo como um instrumento sagrado. Olhava teus olhos que piscavam como se emitissem notas musicais audíveis somente pelos meus ouvidos. Te deixava de repente, corria pra varanda sem ar, como que sabendo que coisas inflamáveis não devem ficar perto do fogo. Mas sempre voltava porque não tinha medo das faíscas e precisava de algum calor que não o meu. Depois tomava um banho gelado pra esquecer ou pra lembrar, já não sei mais. 

Eu precisava fitar teus olhos de felino pra não me esquecer da beleza que continham e das histórias que me contavam, ainda que calados. Cansados.

E de tanto cansaço era que eu fugia e sumia e não dava notícias. Porque o teu silêncio cheio de significâncias às vezes me cansava mais do que simplesmente ver TV ou ler os livros baratos que a gente comprava na padaria.

Eu ia embora achando que precisava de um tempo em outro mundo que não esse de lençóis, cigarros pelo metade e cervejas ruins. Como se o mundo de fora não fosse assim também, só que mais frio, duro e por incrível que pareça, mais surreal.

Era como se eu precisasse ser julgada, como se só existisse qualquer tipo de moralidade do lado de cá, porque eu sabia que você não era capaz de me julgar e talvez fosse verdadeiramente por isso que nunca explodimos. Ameaçávamos e nos afástavamos como que depois de um orgasmo, em que o próprio corpo não aguenta mais continuar porque acha que vai morrer ou explodir ou qualquer coisa assim. Sei lá, eu sempre gostei de imaginar que é assim, como uma fusão de todos os sentidos em um.

Como se viver entre os nossos jornais, canecas e fumaças fosse viver em queda livre e eu às vezes tinha vontade de saber como era viver enclausurada. Agora eu vivo presa em mim mesma. Presa de mim mesma e tento me decifrar e acabo me devorando e não para de doer.

Uma necessidade bruta de realidade, era isso que eu sentia, mas refutava com medo de que pisar os pés no chão fosse mais doloroso do que saltar do 17º andar. E era.  

Frame.

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Dos meus olhos, a poeira de tudo que ficou pra mais tarde.

Que parta como o ontem que me deixou saudade, como se outra vida, distante e nunca minha, fosse dando adeus.

Dos meus olhos, o silêncio das coisas que passam sem se ver.

A metade de tudo que deixou-se de dizer. As palavras enterradas aos goles mornos de cansaço.

Dos meus olhos, as memórias já esquecidas. De tudo que era e não é mais. As lembranças ruidosas, passando na TV, sem as cores que partiram muito antes de mim.

Dos meus olhos, desculpas que invento pra mudar. As esperas que se acumulam na sala de estar.

E ainda que nada mais faça sentido aos olhos do mundo

aos meus olhos, um fim e um começo por segundo.