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Sobras de julho.

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amanda 7 agosto 2013

Julho passou cinza, deixando um negro rastro de fumaça no ar.

Julho deixou seus arranhões em mim, cobriu-me de rachaduras e dores que gritam por dentro.

Pegou-me nos braços e do abraço fez-se sufoco, um estrangular sem saídas pela tangente.

Julho beijou-me os olhos, depois cuspiu-me sem pudores.

Dos dias mornos, fez-se a geada. Da apatia, a angústia.

Do riso fez-se a loucura.

Julho jogou-me cinzas nos olhos e botou-me nua a menos 2ºC. Riu-se, lambuzou-se e partiu.

E de mim, nada restou.

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Aponta pra fé e rema.

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tira amanda 2 julho

Rema, nem que seja na direção contrária, nem que seja sem rumo, porque não se pode parar. Não afunde, jamais.

Não deixa que a correnteza te leve sem que você queira ir. Lute com as forças da natureza, porque você é uma delas.  Não te deixes acostumar com as coisas que se vão, porque memórias são potenciais suicidas.

E quando nada mais restar, abraça o teu cansaço, e que o teu corpo seja teu melhor pouso. Que a solidão seja tua melhor amiga, para que não conheças o outro lado e não entendas – nunca – o que é a saudade.

12 756,2 quilômetros.

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tira amanda 3

Com os meus braços eu abraçaria até trancar a respiração.
E não derramaria mais tristezas, nem deitaria amores partidos em camas mal feitas.

Dobraria os segundos da tua existência, te fazendo eterno. Engoliria as minhas palavras escassas, afogando-as no mar da minha saliva e te daria o meu silêncio, coberto de flores. Te alimentaria apenas de sorrisos, sempre secos, sem nunca deixar que lágrimas os salgassem. Tudo seria doce e nos meus braços caberia o mundo.

Todo palco é céu.

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amanda2

A primeira vez que tentei caminhar no ar, eu nada esperava. Nem gravidade, impacto, asas.

A primeira vez que tentei voar foi após descobrir que a vida não bastava. Que manter os pés no chão, o corpo vertical e a alma vazia não me fariam nada; não doeria, não sangraria, mas também não me faria dançar ou abraçar o mundo.

Depois, quando tentei tocar as estrelas, descobri o quanto eu era pequena. Percebi que escadas não me ajudariam, mas ser gigante também não era um bom plano. 

De tudo, fui entendendo que ser o que se é não é o bastante quando não se é nada. A inexistência me assustava porque sempre me olhava no fundo dos olhos e dizia “bom dia”‘, com ar sereno, um ar de “bem, o que é que se pode fazer afinal?!”. Eu emudecia, engolindo as minhas palavras ignorantes e humanas. Olhava pro lado, matando as minhas memórias e tentando esquecer que não existir é mais comum do que parece.

 

Mas um dia, as memórias não puderam mais morrer ou fui eu que não consegui mais matá-las?

Elas foram se acumulando, petrificando, criando camadas, casas, cômodos dentro de mim. 

Não era mais possível ignorar. Era preciso ser, e antes mesmo que qualquer conexão de neurônios e pensamentos fosse ativada, já se era. Eu era dona de uma teimosa quase existência. E fui sendo, esquecendo de esquecer…

Foi assim que subi até o ponto mais alto, de onde só se podia ver escuridão, mas de cima o medo não existe, ele não consegue chegar tão longe, tão alto; o medo tem medo de altura.

A vida não bastava, era preciso voar, dar o primeiro passo fora da terra firme, caminhar no invisível. Existir era queda livre, o salto no escuro profundo, no desconhecido. 

Jamais descobri se desde aquele primeiro passo, aprendi a voar ou se continuo em queda livre, em direção ao infinito.  

Às estrelas ou ao abismo.

I dug a hole in the ground…

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amanda 1 maio 2013 pintado

“Good luck exploring the infinite abyss.”
Garden State
 

Malas feitas e coração pulando no peito. Alguns adeuses e muitas incertezas. Parto.

Eu andei pelos caminhos firmes de concreto, falei a língua dos homens e tentei falar a dos deuses, tentei desvendar enigmas sagrados e compreender o sentido das coisas. Passei pelas pessoas e pela falta de humanidade, por batalhas perdidas e medalhas sem heróis, pelo dinheiro e pela falta dele, pela ordem aparente que instaurava o caos. Caminhei por dias e anos. E cheguei. 

Sem espelhos, parâmetros ou certezas, tudo que restou da minha bagagem fui eu. Sobras e retalhos de mim.

Fui até a beira, me debruçando sobre a escuridão. Olhei no olho do abismo, por mais tempo do que consigo recordar. Mais tempo do que posso dizer. Quando não pude mais suportar, disse impropérios, palavrões, injúrias e tudo que me atravessava.

Os impulsos, eu deixei de conter. Gritando a ponto de perder a voz, inventei línguas pra dizer aquilo que se sente e não cabe nas palavras dos dicionários, nas línguas humanas. Cantei maldições e quis engolir o abismo, dona de uma desesperada tolice.

As palavras já não me pertenciam, como nada e tudo não podia me pertencer. Os conceitos, o certo, o errado, as convenções. Nada me pertencia, nada me convencia.

O vento gritava comigo e quase me empurrava pra dentro do breu profundo. Mas eu só arredaria o pé se fosse pra matar o que me olhava, o que eu tanto queria engolir mas acabava sempre engolida por ele. 

Encarei os olhos do mundo e os olhos do medo e nada, nada se compara ao olho do abismo que ainda agora me encara. Há muito perdi a coragem de encará-lo de volta, então apenas permaneço a seu lado e quando muito desço meus olhos na escuridão, por meio segundo. Foi assim que descobri que perto do abismo a gente é abissal, apenas. É breu, é sombra, é barulho demais ou silêncio demais, é loucura sem cura, caos ou catarse. 

Acontece que depois das coisas ditas e não ditas, não pude partir. O abismo me olha e me engole lentamente. E eu só não peço socorro pra não ser engolida pelo mundo.

“Abismo que cavaste com teus pés.”
Cartola
 
(a partir de agora, os textos do blog contarão com ilustrações da multiartista Yaya Sugayama :)

Noite.

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Dos amores mais profundos, a ausência.

Os olhos cansados perseguem a loucura da concreto, a intolerância de uma cidade fria e provinciana. Os pés caminham aos trancos, rumo a bares sujos demais ou puros demais, nunca abertos na segunda-feira. Os lábios buscam o beijo ácido de qualquer liberdade, mas só encontram o álcool, velho companheiro de tantas andanças. As mãos seguram o cigarro, o isqueiro, o copo, o dinheiro amassado, na esperança de acharem qualquer paz. Sempre bêbados, os abraços, tortos e cambaleantes procuram aconchego em outros abraços.

O corpo entorpecido, a alma embriagada e nada. Nada que nos console.

La petite mort…

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A dor dentro de mim é um acúmulo sólido de ódio.
Raiva do meu corpo por me trair. Raiva do meu mundo, e dos meus sonhos, e da minha vida, por não durar para sempre.

 

Sinal e Ruído – Neil Gaiman e Dave McKean