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Arquivo da tag: tempo

sobre uma tarde no coração lar

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tenho sentido o tempo nos meus músculos ossos cabelos

mudo e sou muitas em todos os tempos

que meu espírito percorre

e uma delas de mim

pequena

e ao meu redor crianças e

brincamos dançamos sorrimos

é preciso encontrar o que faz o coração bater

os olhos brilharem

o pulsar da vida

e ampliar

o amar

 

 

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Há dois anos desenterrava memórias

e sigo escavando

não para voltar ao passado

(afinal não é possível voltar)

mas me revisito para tentar entender

talvez me prever e não me prender

nas armadilhas

nem cair nas fogueiras

que me atraem todos os dias

mas queimar ainda assim

ser a faísca

a chama

o fogo

 

Frame.

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Dos meus olhos, a poeira de tudo que ficou pra mais tarde.

Que parta como o ontem que me deixou saudade, como se outra vida, distante e nunca minha, fosse dando adeus.

Dos meus olhos, o silêncio das coisas que passam sem se ver.

A metade de tudo que deixou-se de dizer. As palavras enterradas aos goles mornos de cansaço.

Dos meus olhos, as memórias já esquecidas. De tudo que era e não é mais. As lembranças ruidosas, passando na TV, sem as cores que partiram muito antes de mim.

Dos meus olhos, desculpas que invento pra mudar. As esperas que se acumulam na sala de estar.

E ainda que nada mais faça sentido aos olhos do mundo

aos meus olhos, um fim e um começo por segundo.

Sobrepesos

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De alguma forma, descobri que envelhecer é ganhar peso. É carregar todas as malas, sacolas, bolsas, caixas e vidas que até então eram suportadas pela quase bondade de outros seres, velhos e desgastados, que por ventura, cruzaram o nosso caminho. Como se flutuássemos, carregados pelos seres em que nos tornaremos a seguir, e de repente, o fio se partisse, a luz acendesse e os laços estivessem soltos. De sobra, apenas o baque de um corpo sozinho voltando pro chão, com correntes pra arrastar por uma vida inteira.

É perder o tempo e ganhar, com alguma sorte, bagagens que se possa transportar pelo mundo. 

Em algum ponto do caminho, descobri que envelhecer é ganhar a companhia da solidão. É mais do que soprar velinhas ou ter cabelos brancos ou usar creme anti-sinais. Uma espécie de substituição acontece quando os laços se desfazem: vão-se os que estão mais perto do fim, e em troca, ficam as bagagens e a solidão, que só poderá ser disfarçada quando chegar a hora de carregar pesos alheios.

Descobri, por fim, que tudo isso acontece no mais silencioso escuro, sem avisos prévios, pistas e cerimônias, e que não há tempo para choques ou adaptações.  É preciso andar antes que os pesos se tornem âncoras presas no fundo do abismo do tempo.

“Solidão é barulho de geladeira.”

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De tudo que eu guardei.

Das coisas que esqueci.

Fui deixando pra depois, desviando.

Deixei pra depois tudo que não podia esperar.

Assim, meio enviesada na vida, fui passando os dias. Abarrotando os lençóis, amassando os papeis e sujando os cantos com pouca vida.

Com o passar do tempo, o branco decidiu ser apenas branco, sem abrir-se às outras cores. Branco. Vazio.

A janela permanece fechada, as cortinas cerradas, o sinal fechado, a porta da frente, trancada. O céu escurecido em pleno dia. Olhos, sorrisos, cabeças. Fechados. 

A casa vazia, o eco em silêncio, calado à espera de qualquer companhia. As sombras partiriam se pudessem. Nem o pó quer se deitar nesses cômodos. As goteiras se fecharam com o tempo, não há chuva que aqui queira cair. 

O barulho da geladeira só vem me visitar aos fins de semana, pra me lembrar das coisas que esqueci.

Das coisas que guardei num passado menos sépia, sem cheiro de naftalina. Das coisas que tranquei nas fotografias, nas palavras proibidas, nos sonhos que enterrei no quintal. 

Da solidão que me fugia, e agora, me acompanha.

 

*a frase que dá nome ao título é de autoria de Luiz Felipe Leprevost.

Rhapsody 1.

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Abri os olhos. Um caos bonito, com cheiro e gosto de ferrugem. 

Meu tato reconhece o calor e a textura de tudo que perece. Do sangue que escorre lavando a minha alma. 

O hálito quente da morte ainda pairando sobre o mundo, me fazendo quase transpirar.

O meu corpo querendo se desgrudar do real e dançar de braços dados com a liberdade.

O mundo parou de girar por alguns instantes. E com ele o tempo. Por isso instantes abstratos, e não segundos. Como se a vida de todas as coisas tivessem sido sugadas e congeladas por uma breve eternidade.

Não havia consciência, devaneio ou culpa. Não haviam gotas de lágrimas ou de sangue que ousassem cair. Sem pulso, sem coração batendo.

A eternidade me condenava.

Waking.

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Eu não vi o tempo passar. E agora sinto-o pesar no meu corpo, no ar ao redor, nas cores envelhecidas, no cheiro de mofo que me acompanha por onde vou.

Sempre acreditei que caminhar me levaria a algum lugar e que o tempo não poderia simplesmente me esmagar. 

Caminhei de olhos fechados pelo que me parece agora, uma eternidade. E de olhos fechados, não pude ver que andava em círculos em torno de coisas mortas.

Talvez não percebesse que não saía do lugar justamente pela falta de vida. Os mortos não falam. As coisas mortas, menos ainda.

Dei voltas, muitas. Abri buracos sobre a terra, a ponto de quase me enterrar. 

Quando abri os olhos, descobri que matar as coisas mortas é mais difícil do que se imagina. A falta de vida que contêm, é mais cruel do que qualquer mortalidade. Elas continuavam ali, esperando. Quietas, cheias de histórias e poeira. E eu que caminhava em busca de mais vida, de talvez uma amnésia que pudesse ser um começo, tropecei nas coisas mortas que esqueci de enterrar. 

 

Antes tarde do que nunca.