Assinatura RSS

Arquivo da tag:

Nothingness.

Publicado em

Nada foi o que eu vi quando olhei pro lado.

Foi o que eu vi no fundo dos olhos de tanta gente que passava, de gente que falava, de gente que ficava mesmo tendo vontade de ir.

Eu que rezava todas as noites e pedia coisas tão simples que nem mesmo deus imagina. Eu que pedia a qualquer deus pra não ficar sozinha.

E ria, bebia, cantava, dançava com venda nos olhos. E caminhava pela vida como se fosse feliz.

Alegrava as festas e ria de mim mesma, mirando olhos-espelhos que sempre me sorriam de volta. E seguia, como bicho, como deus, como qualquer coisa que não teme o amanhã.

Eu que olhava pra própria sombra sem nada desconfiar. Eu que sorria pro mundo sem precisar de motivo. Eu, que fingia que alegria era felicidade e seguia… Cega, vagando pelo vale das ilusões.

Que bebia para que a embriaguez durasse pra sempre, sem saber da ressaca que o amanhã guarda.

Eu, que não tinha medo de ser feliz, nada mais achei.

E num gole de realidade, vi no fundo dos meus olhos, além do nada, uma fagulha de solidão a me acompanhar.

Anúncios

Waking.

Publicado em

 

Eu não vi o tempo passar. E agora sinto-o pesar no meu corpo, no ar ao redor, nas cores envelhecidas, no cheiro de mofo que me acompanha por onde vou.

Sempre acreditei que caminhar me levaria a algum lugar e que o tempo não poderia simplesmente me esmagar. 

Caminhei de olhos fechados pelo que me parece agora, uma eternidade. E de olhos fechados, não pude ver que andava em círculos em torno de coisas mortas.

Talvez não percebesse que não saía do lugar justamente pela falta de vida. Os mortos não falam. As coisas mortas, menos ainda.

Dei voltas, muitas. Abri buracos sobre a terra, a ponto de quase me enterrar. 

Quando abri os olhos, descobri que matar as coisas mortas é mais difícil do que se imagina. A falta de vida que contêm, é mais cruel do que qualquer mortalidade. Elas continuavam ali, esperando. Quietas, cheias de histórias e poeira. E eu que caminhava em busca de mais vida, de talvez uma amnésia que pudesse ser um começo, tropecei nas coisas mortas que esqueci de enterrar. 

 

Antes tarde do que nunca.

 

Não mais.

Publicado em

Um dia alguém se perguntou por quanto tempo um ser humano sangra até ficar completamente vazio.

Doar-se é sangrar. Não por si mesmo, mas pelo mundo e pelas coisas em que se acredita. 

Dia desses eu me cortei, sem perceber. Tarde demais, o sangue já ia dando adeus, dobrando a esquina e então a ficha caiu. Sempre tarde demais.

Se eu sangrava – e sangro -, o vazio crescente não me pertence. Não sou a única com as mãos manchadas de sangue. 

O vazio é inaceitável. Nem mesmo as moscas pairam sobre ele. Mas enquanto há sangue para correr, nos mantemos de pé, temos um nome, somos reais e existimos para o mundo. 

Hoje eu olhei para mim. Percebi que tenho cortes por todo o corpo, que nunca doeram. Mas agora eu sei que eles existem e que não vão parar de sangrar.

Tarde demais.

 

 

Em outras palavras

Publicado em

Eu nunca quis ser fraca. Nunca fugi da briga. Nunca sangrei sem ter pedido por isso. Nunca pedi desculpas por quem eu sou, por quem serei daqui a pouco.

E nem pedirei. Não peço desculpa por ter coragem de cruzar a linha, de quebrar as portas, as cercas e as pedras do caminho.

Acredito firmemente em tudo que ainda não foi dito e que por mim, será. Nenhuma força virá me fazer calar.

Aos tropeços foi que aprendi a caminhar, levantando com a ajuda do vento batendo nas costas. Agora, companheiros de batalha, caminhamos lado a lado, peito aberto, mente serena e coração inquieto. Como já disse um eterno: quem tem alma não tem calma. E por isso canto, grito, explodo, sangro e sou tudo que não pode mais se calar.

Combustão.

Publicado em

O dedo em riste me aponta a mentira que sou. Mas eu sorrio porque minha alma nasceu para ser queimada até o fim.

E se fujo, mais exponho meu avesso, meu lado B, minha face nua, crua e sem pudor.

Se minto, – e minto o tempo todo – é pra amordaçar a realidade que me fere quando abro os olhos.

Desaprendi a moral. Larguei-a ao atravessar os umbrais que passei pra chegar até aqui. 

A morte da lógica é a única que me importa. A ela, um funeral de neon.

Ao resto, queimar até o fim:

 

Apocatástase!

 

De como matei o mundo

Publicado em

Tive que perder meus ídolos para encontrar a minha voz.
Para que eles não me matassem mesmo estando mortos. Para que a minha destruição não fosse a deles, e dependesse só de mim. Para que ninguém mais tivesse que morrer ou matar.

Os meus ídolos, tive que pari-los inúmeras vezes, ensanguentando-me com suas ideias, injetando suas ideologias. Arranquei pela raiz suas dores, que se tornaram minhas.
A fim de encontrar a paz, ateei fogo às suas fotos, às minhas. Queimei tudo que não é direito, nem nunca será. Todos os poemas, palavras, livros e canções bastardos. Afoguei revoluções inteiras no meu copo, naquela tarde fria de agosto. 

Eu queria consertá-los para que as suas misérias não se alojassem dentro de mim. Queria me salvar salvando-os do mundo, e de nós mesmos.

Eu trancaria amores adocicados, fins de tarde ensolarados, beijos escondidos, toda a sorte de bestas e anjos de uma asa só. Eu cegaria pra que todos pudessem ver.

Eu faria o fim do mundo pra que ninguém mais tivesse que fazer. Eu dançaria sobre os pedaços do fim, cantando o que coube a mim, – e a mais ninguém -, cantar.

Mas eu escrevi falhas e erros no meu próprio corpo. Plantei sementes inférteis. Não deu.

Agora sou tudo que desacredito. Sou as horas que não passam, os gritos que se calam, os discursos ditos em silêncio. 

Perdi meus ídolos para encontrar minha voz. E ela definhou, deu nó.

Afoguei-me no imenso mar de mim mesma.

 

 

Não, hoje não.

Publicado em

Eu não te adoro.

Não vai ser dessa vez que vou te acarinhar e dizer “tudo bem, vai ficar tudo bem”.

Hoje eu vou gritar até não poder mais. Até que me falte o ar. Vou gritar todas as verdades que são minhas porque as roubei, engoli, digeri. Vou denunciar tudo quanto tem me tirado noites de sono.

Há quanto tempo paramos de andar? Há quanto estancamos? Quanto falta para caminharmos para trás? 

Cascas vazias não se mantém em pé. Vazias de alma, vida e fúria.

São mudos, e assim como os mortos, invisíveis. Mas aqueles, ao contrário destes, são assim geralmente por uma infeliz escolha própria.

É a lei da vida, do mundo que vive em colapso: quem não tem voz, desaparece.

Eu não sei calar, então não me calo. Não sei aceitar a morte em forma de silêncio, as palavras que morreriam dentro de mim. Que sejam tortas, sujas, até feias, são minhas e não se calam.

E dizem sim sem esperar aval.  Porque aqui não há lugar para pouca vida.