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Todo palco é céu.

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amanda2

A primeira vez que tentei caminhar no ar, eu nada esperava. Nem gravidade, impacto, asas.

A primeira vez que tentei voar foi após descobrir que a vida não bastava. Que manter os pés no chão, o corpo vertical e a alma vazia não me fariam nada; não doeria, não sangraria, mas também não me faria dançar ou abraçar o mundo.

Depois, quando tentei tocar as estrelas, descobri o quanto eu era pequena. Percebi que escadas não me ajudariam, mas ser gigante também não era um bom plano. 

De tudo, fui entendendo que ser o que se é não é o bastante quando não se é nada. A inexistência me assustava porque sempre me olhava no fundo dos olhos e dizia “bom dia”‘, com ar sereno, um ar de “bem, o que é que se pode fazer afinal?!”. Eu emudecia, engolindo as minhas palavras ignorantes e humanas. Olhava pro lado, matando as minhas memórias e tentando esquecer que não existir é mais comum do que parece.

 

Mas um dia, as memórias não puderam mais morrer ou fui eu que não consegui mais matá-las?

Elas foram se acumulando, petrificando, criando camadas, casas, cômodos dentro de mim. 

Não era mais possível ignorar. Era preciso ser, e antes mesmo que qualquer conexão de neurônios e pensamentos fosse ativada, já se era. Eu era dona de uma teimosa quase existência. E fui sendo, esquecendo de esquecer…

Foi assim que subi até o ponto mais alto, de onde só se podia ver escuridão, mas de cima o medo não existe, ele não consegue chegar tão longe, tão alto; o medo tem medo de altura.

A vida não bastava, era preciso voar, dar o primeiro passo fora da terra firme, caminhar no invisível. Existir era queda livre, o salto no escuro profundo, no desconhecido. 

Jamais descobri se desde aquele primeiro passo, aprendi a voar ou se continuo em queda livre, em direção ao infinito.  

Às estrelas ou ao abismo.

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Omni.

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Que fosse possível acordar com a certeza de que a tristeza que a gente tem qualquer dia vai se acabar.

E volta e meia eu me pego sentada, fazendo sala pra esse fantasma da existência humana. E me pego falando assim, como se toda existência humana me coubesse, como se de alguma forma eu fosse onisciente. Faço sala, sirvo cafés, sorrisos, aspirinas, entorpecentes e fugas. Saídas de emergência pra todos os lados. Ela continua ali, parada, me encarando, sem qualquer sinal de partida, ou palavras, apenas jogos psicológicos. Sempre igual: ela chega, serenamente, senta-se e me olha longamente. Não diz que sim, nem que não às coisas que tento lhe oferecer.

E lá se vão horas, dias, às vezes semanas de espera, até que ela decida partir. Enquanto isso, eu devaneio, me debato e vivo de cafés ruins e noites mal dormidas. Esquecendo dos sorrisos que ficaram pra depois, da chuva que eu deixei de dançar e de todo e qualquer sopro de alegria.

Um belo dia, ao despertar de uma destas noites mal dormidas, passo os olhos cansados pela sala e por toda a casa. Ela se foi, de viagem pra algum canto, atrás de outras salas e existências. Mas ela sempre volta.

Até lá, me permito dizer, ainda que de longe: bom dia, tristeza.

Queda livre.

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Eu corria os dedos pelo teu corpo como um instrumento sagrado. Olhava teus olhos que piscavam como se emitissem notas musicais audíveis somente pelos meus ouvidos. Te deixava de repente, corria pra varanda sem ar, como que sabendo que coisas inflamáveis não devem ficar perto do fogo. Mas sempre voltava porque não tinha medo das faíscas e precisava de algum calor que não o meu. Depois tomava um banho gelado pra esquecer ou pra lembrar, já não sei mais. 

Eu precisava fitar teus olhos de felino pra não me esquecer da beleza que continham e das histórias que me contavam, ainda que calados. Cansados.

E de tanto cansaço era que eu fugia e sumia e não dava notícias. Porque o teu silêncio cheio de significâncias às vezes me cansava mais do que simplesmente ver TV ou ler os livros baratos que a gente comprava na padaria.

Eu ia embora achando que precisava de um tempo em outro mundo que não esse de lençóis, cigarros pelo metade e cervejas ruins. Como se o mundo de fora não fosse assim também, só que mais frio, duro e por incrível que pareça, mais surreal.

Era como se eu precisasse ser julgada, como se só existisse qualquer tipo de moralidade do lado de cá, porque eu sabia que você não era capaz de me julgar e talvez fosse verdadeiramente por isso que nunca explodimos. Ameaçávamos e nos afástavamos como que depois de um orgasmo, em que o próprio corpo não aguenta mais continuar porque acha que vai morrer ou explodir ou qualquer coisa assim. Sei lá, eu sempre gostei de imaginar que é assim, como uma fusão de todos os sentidos em um.

Como se viver entre os nossos jornais, canecas e fumaças fosse viver em queda livre e eu às vezes tinha vontade de saber como era viver enclausurada. Agora eu vivo presa em mim mesma. Presa de mim mesma e tento me decifrar e acabo me devorando e não para de doer.

Uma necessidade bruta de realidade, era isso que eu sentia, mas refutava com medo de que pisar os pés no chão fosse mais doloroso do que saltar do 17º andar. E era.  

Rhapsody 1.

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Abri os olhos. Um caos bonito, com cheiro e gosto de ferrugem. 

Meu tato reconhece o calor e a textura de tudo que perece. Do sangue que escorre lavando a minha alma. 

O hálito quente da morte ainda pairando sobre o mundo, me fazendo quase transpirar.

O meu corpo querendo se desgrudar do real e dançar de braços dados com a liberdade.

O mundo parou de girar por alguns instantes. E com ele o tempo. Por isso instantes abstratos, e não segundos. Como se a vida de todas as coisas tivessem sido sugadas e congeladas por uma breve eternidade.

Não havia consciência, devaneio ou culpa. Não haviam gotas de lágrimas ou de sangue que ousassem cair. Sem pulso, sem coração batendo.

A eternidade me condenava.

Valsa do novo mundo novo.

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Acontece que hoje ela ouviu uma música antiga. Foi entrando meio sem pedir licença, pelos ouvidos. E começou a cantar.

E continuou a cantar. Mais alto que a música.

Impunha seu tom, e cantava, cantava… fechava os olhos devagar, quase sem notar.

E se caísse em si, perceberia que dançava, e rodopiando abandonou a sua humanidade. Agora ela era toda música, era vento, era gravidade e a falta dela, era impulso de vida que morre a cada segundo para ressurgir, maior e mais livre.

O mundo lá fora já não era o mundo de dentro e ela ouvia a música que mais ninguém podia ouvir, como se sempre tivesse sido assim e não pudesse haver quaisquer outros sons. Sons? Não, não. A verdade, além da realidade inventada que todos pensam real, é que não havia mais nada. Não havia passado para se recordar, e sequer a noção dele, não havia significados para serem compreendidos; nada para ser devorado pela razão ou calculado pelos números dos homens. Nada para ser visto com olhos humanos. Apenas música. Existindo. Pulsando. Os ruídos do vinil antigo rodando na vitrola, tornando aquele universo-música algo que não se pode descrever com meras palavras mortais.

E ela, dentro. Rodando no compasso perfeito do mundo mais real de que se tem notícia.

Perecivelmente.

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Arrancou-o lentamente. Inteiro ou aos pedaços, não saberia dizer. Colocou-o no congelador, ainda de mãos dadas, num para sempre que acabou ao amanhecer. 

Aos poucos, viu-o esverdear-se até mofar. Acabara seu prazo de validade. Às vezes as coisas podres e sujas são as mais bonitas, com seus tons em sépia. 

Enrugara, perdera o viço, diminuíra de tamanho como acontece às coisas que envelhecem. É, talvez, uma lei da vida, simples e fatal. Morre-se, apenas.

Um dia encontraria outro que pulsasse, mais forte e vivo que todos, vermelho sangue. Que fervesse todos os amores antigos, que acalmasse as tormentas que um dia bateram à sua porta. 

Talvez não.

Os últimos.

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A impotência. Eis um dos piores sentimentos do mundo.

Destruidor, corrosivo.

 

Ela ainda fitava seus olhos vidrados e pensava no quanto gostaria de fechá-los. Ou que abertos, tivessem vida.

Ainda apertava aquelas mãos quentes, segurava aquele corpo com o seu. Sentia seu cheiro, seu perfume misturado ao odor de seu último cigarro.

Ele tinha uma aparência serena, como quem sabe que recebeu sua última visita e que agora parte para uma última viagem, sem bagagem, sem adeus.

Não parecia ter lutado, não parecia ter sofrido. Mas ela sabia que sim; lutaram lado a lado. Protegiam-se aos gritos, como se estes fossem escudos. Suavam, buscavam forças, atravessavam corpos. Ela sabia que sobreviveria e isso a atormentava.

Sabia que o tempo passaria, que as tempestades iriam embora, e que tudo tem seu fim.

Mas como o mundo podia fazer sentido com aquele homem imóvel e cada vez mais frio sob ela? Como o mundo podia seguir vivo se

 

“O mundo está sempre acabando pra alguém”?

Agora ela sabia.

 

Pensava em por quanto tempo uma vida sangra até ficar completamente vazia. Pensava no fim. Nas coisas inacabadas, na teimosia de tudo que é vivo e insiste em pulsar justo quando ela quer que o mundo parecongeledefinhemorra. E sangre com ela. E sangre com ele. Por ele.

 

 

“Não é o fim.”