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Arquivo da tag: Meio-fio

Chuva ácida.

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Cuspi todas as palavras que me colocaram na boca. Uma a uma. Presas na garganta, enfiadas goela adentro. Uma a uma.

Uma torrente de palavras molhadas gritadas raivosas ensurdecedoras. Uma enxurrada de coisas que entalavam-se em mim, em minhas fronteiras, labirintos e quaisquer espaços – aparentemente vazios. Sem ter pra onde transbordar, tiveram que sair. E foi pela boca. Pela boca vermelha e ácida. Pela boca que xinga e beija e depois ri. Pela boca que se cala, que se fecha em resiliência, no mais profundo silêncio.

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(h)à(s) vezes.

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Às vezes há vezes em que é preciso assumir. Abraçar tudo, sem fazer concessões, sem restrições.

Depois, colocar o peso todo nas costas. Conquistar equilíbrio, não deixar que fraquejem as pernas, não deixar que se entreguem.

E só então, a primeira tentativa:

o primeiro passo,

a fita de cetim vermelho que se corta num instante de glória. O peso ganhando outra dimensão. Deixando de simplesmente doer para se tornar essencial, quase sutil. Uma dor que acompanha o compasso do caminho das pedras, que se ajusta perfeitamente aos cambaleios e hesitações – os que vieram e os outros, parte do futuro.

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E vezes há em que o esquecimento é o melhor companheiro para o silêncio.  Meu, e de todos nós.

No exit.

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É assim, como se fosse só apertar o delete. 

E eu me pergunto, por que é que a gente não vira gelo de uma vez? Por que não endurece até não poder mais? Se somos ou podemos ser tão frios, calculistas, tão robôs, seres digitantes da era digital, resolvendo todas as questões sagradas do universo em um clique.

Não.

No fim das contas mesmo, a gente engole o choro ou se descabela, queima e joga fora tudo que faz mal, tudo que quer esquecer. Mas e a lixeira interna, como achar? O meu botão de delete, cadê?

Na hora de não sentir, de virar pedra, é que mais se sente, e  elevado a inúmeras raízes. Sem fugas, sem reset. No exit. 

Só refúgio, esconderijo. Isso a gente sempre arranja. Mas saída, não.

Então o jeito é continuar sendo o que sou: mais carne do que osso. Um pouco de alma, um pouco de amor e mais um tanto de desamor. Um bom tanto de contrasenso, outro de nostalgia. E o pior: muito mais coração do que qualquer outra coisa.

Reflexão de meio-fio sobre o tempo.

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É isso mesmo: a vida não para.

Um belo dia o mundo decide desabar. Você se enfia embaixo das cobertas e decide não ver mais a luz do sol, pelo menos por um bom tempo. Mas o tempo não é bom. Não. Ele vai passar, mas não do jeito que você quer. Você não vai dormir durante trinta anos como gostaria. A vida lá fora vai seguir, o tempo vai passar igual, dentro de suas próprias lógicas, sem obedecer a ninguém.

Sem esperar pelo seu tempo, as coisas vão acontecer.

Nascer morrer mudar queimar transformar. Jogar fora, virar poeira.

Tic.

Tac.