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Arquivo da tag: efemeridades

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tira amanda 3

Com os meus braços eu abraçaria até trancar a respiração.
E não derramaria mais tristezas, nem deitaria amores partidos em camas mal feitas.

Dobraria os segundos da tua existência, te fazendo eterno. Engoliria as minhas palavras escassas, afogando-as no mar da minha saliva e te daria o meu silêncio, coberto de flores. Te alimentaria apenas de sorrisos, sempre secos, sem nunca deixar que lágrimas os salgassem. Tudo seria doce e nos meus braços caberia o mundo.

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Queda livre.

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Eu corria os dedos pelo teu corpo como um instrumento sagrado. Olhava teus olhos que piscavam como se emitissem notas musicais audíveis somente pelos meus ouvidos. Te deixava de repente, corria pra varanda sem ar, como que sabendo que coisas inflamáveis não devem ficar perto do fogo. Mas sempre voltava porque não tinha medo das faíscas e precisava de algum calor que não o meu. Depois tomava um banho gelado pra esquecer ou pra lembrar, já não sei mais. 

Eu precisava fitar teus olhos de felino pra não me esquecer da beleza que continham e das histórias que me contavam, ainda que calados. Cansados.

E de tanto cansaço era que eu fugia e sumia e não dava notícias. Porque o teu silêncio cheio de significâncias às vezes me cansava mais do que simplesmente ver TV ou ler os livros baratos que a gente comprava na padaria.

Eu ia embora achando que precisava de um tempo em outro mundo que não esse de lençóis, cigarros pelo metade e cervejas ruins. Como se o mundo de fora não fosse assim também, só que mais frio, duro e por incrível que pareça, mais surreal.

Era como se eu precisasse ser julgada, como se só existisse qualquer tipo de moralidade do lado de cá, porque eu sabia que você não era capaz de me julgar e talvez fosse verdadeiramente por isso que nunca explodimos. Ameaçávamos e nos afástavamos como que depois de um orgasmo, em que o próprio corpo não aguenta mais continuar porque acha que vai morrer ou explodir ou qualquer coisa assim. Sei lá, eu sempre gostei de imaginar que é assim, como uma fusão de todos os sentidos em um.

Como se viver entre os nossos jornais, canecas e fumaças fosse viver em queda livre e eu às vezes tinha vontade de saber como era viver enclausurada. Agora eu vivo presa em mim mesma. Presa de mim mesma e tento me decifrar e acabo me devorando e não para de doer.

Uma necessidade bruta de realidade, era isso que eu sentia, mas refutava com medo de que pisar os pés no chão fosse mais doloroso do que saltar do 17º andar. E era.  

Frame.

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Dos meus olhos, a poeira de tudo que ficou pra mais tarde.

Que parta como o ontem que me deixou saudade, como se outra vida, distante e nunca minha, fosse dando adeus.

Dos meus olhos, o silêncio das coisas que passam sem se ver.

A metade de tudo que deixou-se de dizer. As palavras enterradas aos goles mornos de cansaço.

Dos meus olhos, as memórias já esquecidas. De tudo que era e não é mais. As lembranças ruidosas, passando na TV, sem as cores que partiram muito antes de mim.

Dos meus olhos, desculpas que invento pra mudar. As esperas que se acumulam na sala de estar.

E ainda que nada mais faça sentido aos olhos do mundo

aos meus olhos, um fim e um começo por segundo.

De como matei o mundo

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Tive que perder meus ídolos para encontrar a minha voz.
Para que eles não me matassem mesmo estando mortos. Para que a minha destruição não fosse a deles, e dependesse só de mim. Para que ninguém mais tivesse que morrer ou matar.

Os meus ídolos, tive que pari-los inúmeras vezes, ensanguentando-me com suas ideias, injetando suas ideologias. Arranquei pela raiz suas dores, que se tornaram minhas.
A fim de encontrar a paz, ateei fogo às suas fotos, às minhas. Queimei tudo que não é direito, nem nunca será. Todos os poemas, palavras, livros e canções bastardos. Afoguei revoluções inteiras no meu copo, naquela tarde fria de agosto. 

Eu queria consertá-los para que as suas misérias não se alojassem dentro de mim. Queria me salvar salvando-os do mundo, e de nós mesmos.

Eu trancaria amores adocicados, fins de tarde ensolarados, beijos escondidos, toda a sorte de bestas e anjos de uma asa só. Eu cegaria pra que todos pudessem ver.

Eu faria o fim do mundo pra que ninguém mais tivesse que fazer. Eu dançaria sobre os pedaços do fim, cantando o que coube a mim, – e a mais ninguém -, cantar.

Mas eu escrevi falhas e erros no meu próprio corpo. Plantei sementes inférteis. Não deu.

Agora sou tudo que desacredito. Sou as horas que não passam, os gritos que se calam, os discursos ditos em silêncio. 

Perdi meus ídolos para encontrar minha voz. E ela definhou, deu nó.

Afoguei-me no imenso mar de mim mesma.

 

 

Ímpar.

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Tirei os óculos pra te enxergar melhor.
Mais perto.

Eu não te esperava tão cinza, tão cheio de cicatrizes que você diz que foi o tempo que fez.

Tento fazer as minhas razões transbordarem pelos olhos, ao teu encontro. Elas só sabem se perder no caminho, porque já não são minhas. 

Sempre insisto em esquecer tudo que eu queria te dizer.
Então meu discurso é o silêncio, que fala mais do que muitas e tantas poesias e vinhos e cigarros baratos.

Visto os meus argumentos mais delicados e sinceros, cheirando a guardado, esperando que sejam minha armadura nessa guerra inventada.

Sei que voltarei aos trapos. É por isso que se chama murro em ponta de faca, não é? 

Por fim, suspiro e digo “tudo bem, tudo bem”, mera repetição das únicas palavras que me recordo. Desaprendi as palavras, as ideias, as razões.

Ficou só esse coração pesado, batendo nos segundos ímpares de um compasso qualquer.

Perecivelmente.

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Arrancou-o lentamente. Inteiro ou aos pedaços, não saberia dizer. Colocou-o no congelador, ainda de mãos dadas, num para sempre que acabou ao amanhecer. 

Aos poucos, viu-o esverdear-se até mofar. Acabara seu prazo de validade. Às vezes as coisas podres e sujas são as mais bonitas, com seus tons em sépia. 

Enrugara, perdera o viço, diminuíra de tamanho como acontece às coisas que envelhecem. É, talvez, uma lei da vida, simples e fatal. Morre-se, apenas.

Um dia encontraria outro que pulsasse, mais forte e vivo que todos, vermelho sangue. Que fervesse todos os amores antigos, que acalmasse as tormentas que um dia bateram à sua porta. 

Talvez não.

“A vida não é crua… é precipício.”

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O dia que começa com chuva lá fora e sol, passarinhos cantando aqui dentro, inverte-se. Findam-se as esperas. Cessa o frio na barriga, e com ele, qualquer sinal de um sorriso sincero. A noite chegou mais cedo, e sem companhia, deixei-a ficar.

E como eu nunca sei ser metade, nunca sei me conter e entregar só um terço: chovo por inteira. Molho as tardes vazias que esperam no quintal. Ou então, trago o sol no sorriso, abrindo os caminhos, transbordando sutilezas, cores, pequenas esperanças. 

“Mas aqui não há lugar pra pouca vida.”

Só existem copos cheios, só existe tudo que é demais. Só o que não sabe esperar e nem caber em si.  

Não há pouco que caiba em tudo que sou.