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Arquivo da tag: Delírio

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tira amanda 3

Com os meus braços eu abraçaria até trancar a respiração.
E não derramaria mais tristezas, nem deitaria amores partidos em camas mal feitas.

Dobraria os segundos da tua existência, te fazendo eterno. Engoliria as minhas palavras escassas, afogando-as no mar da minha saliva e te daria o meu silêncio, coberto de flores. Te alimentaria apenas de sorrisos, sempre secos, sem nunca deixar que lágrimas os salgassem. Tudo seria doce e nos meus braços caberia o mundo.

Pulso.

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São muitas as palavras que não couberam na minha boca. Os gritos que a cada rompante reviravam as entranhas.

Os sons que diante do caos, se espalhavam como pequenos apocalipses. Lapsos de perdas: de memória, de tempo.

No céu, sonhos explodiam no ar, como fogos que anunciassem o fim. 

Eu via a minha imagem refletida nos estilhaços que caiam, colorindo o mundo de vermelho.

Nunca foi fácil viver com um coração que não cabe dentro do peito. Que não cabe na carne, nos ossos, no ventre, na boca, em parte alguma.

Eu vacilo, perco o equilíbrio com essa outra vida que me faz pulsar, dentro e fora, como se abraçar o mundo fosse possível.

Vivo muitas vidas, ainda que esse músculo que bombeia sangue para o corpo, me faça febril, mortal, efêmera. Vivo todas as vidas e morro com elas pra continuar vivendo. 

Todos os dias, engulo esse coração que insiste em querer saltar pela boca. E ele bate, me bate, me estrangula por dentro. 

Eu caminho, carrego o peso desse monstro que nunca dorme, guardado em mim. Eu corro, abraço o mundo, rio até chorar, tento fugir, mas ele não pára. 

E não vai parar enquanto eu gritar tudo que nunca foi dito, enquanto existir algo pra procurar. O que o seu coração está procurando?

“Solidão é barulho de geladeira.”

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De tudo que eu guardei.

Das coisas que esqueci.

Fui deixando pra depois, desviando.

Deixei pra depois tudo que não podia esperar.

Assim, meio enviesada na vida, fui passando os dias. Abarrotando os lençóis, amassando os papeis e sujando os cantos com pouca vida.

Com o passar do tempo, o branco decidiu ser apenas branco, sem abrir-se às outras cores. Branco. Vazio.

A janela permanece fechada, as cortinas cerradas, o sinal fechado, a porta da frente, trancada. O céu escurecido em pleno dia. Olhos, sorrisos, cabeças. Fechados. 

A casa vazia, o eco em silêncio, calado à espera de qualquer companhia. As sombras partiriam se pudessem. Nem o pó quer se deitar nesses cômodos. As goteiras se fecharam com o tempo, não há chuva que aqui queira cair. 

O barulho da geladeira só vem me visitar aos fins de semana, pra me lembrar das coisas que esqueci.

Das coisas que guardei num passado menos sépia, sem cheiro de naftalina. Das coisas que tranquei nas fotografias, nas palavras proibidas, nos sonhos que enterrei no quintal. 

Da solidão que me fugia, e agora, me acompanha.

 

*a frase que dá nome ao título é de autoria de Luiz Felipe Leprevost.

Combustão.

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O dedo em riste me aponta a mentira que sou. Mas eu sorrio porque minha alma nasceu para ser queimada até o fim.

E se fujo, mais exponho meu avesso, meu lado B, minha face nua, crua e sem pudor.

Se minto, – e minto o tempo todo – é pra amordaçar a realidade que me fere quando abro os olhos.

Desaprendi a moral. Larguei-a ao atravessar os umbrais que passei pra chegar até aqui. 

A morte da lógica é a única que me importa. A ela, um funeral de neon.

Ao resto, queimar até o fim:

 

Apocatástase!

 

Golden.

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Para ler ouvindo:

Tira o meu chão. Faz com que eu tropece e caia e me levante cambaleante e seguindo em frente, sempre.

Me dá um dia novo, em branco, pra pintar com as cores que eu imagino que a vida tem. Pra eu pintar cores e cheiros sem nome e fazer chover fora de mim.

Escreve todas as palavras proibidas pra que eu grite-as com todo o ar dos meus pulmões. Me ensina cantigas que ninguém nunca cantou pra que eu descubra a minha voz. 

Me machuca, me faz sangrar todas as misérias do universo. Arranca o meu câncer, esse coração que não me cabe, que não cabe em canto nenhum de história nenhuma. Me quebra ao meio pra que eu esvazie. E depois transborde de novo.

Me dá um gole de vida pra que eu morra um pouco também.

Me transforma em sombra pra eu te acompanhar.

Pendura o teu sorriso na parede, pra que eu não desaprenda a sorrir. Me dá o teu o sonho pra eu queimar. Me dá a última luz, a chama do fim do mundo.

E de pequena, me torna grande. Me faz maior.

Me dá o pó com o qual eu construirei o mundo. 

Me dá o mundo. Me faz o mundo. 

Valsa do novo mundo novo.

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Acontece que hoje ela ouviu uma música antiga. Foi entrando meio sem pedir licença, pelos ouvidos. E começou a cantar.

E continuou a cantar. Mais alto que a música.

Impunha seu tom, e cantava, cantava… fechava os olhos devagar, quase sem notar.

E se caísse em si, perceberia que dançava, e rodopiando abandonou a sua humanidade. Agora ela era toda música, era vento, era gravidade e a falta dela, era impulso de vida que morre a cada segundo para ressurgir, maior e mais livre.

O mundo lá fora já não era o mundo de dentro e ela ouvia a música que mais ninguém podia ouvir, como se sempre tivesse sido assim e não pudesse haver quaisquer outros sons. Sons? Não, não. A verdade, além da realidade inventada que todos pensam real, é que não havia mais nada. Não havia passado para se recordar, e sequer a noção dele, não havia significados para serem compreendidos; nada para ser devorado pela razão ou calculado pelos números dos homens. Nada para ser visto com olhos humanos. Apenas música. Existindo. Pulsando. Os ruídos do vinil antigo rodando na vitrola, tornando aquele universo-música algo que não se pode descrever com meras palavras mortais.

E ela, dentro. Rodando no compasso perfeito do mundo mais real de que se tem notícia.

De como matei o mundo

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Tive que perder meus ídolos para encontrar a minha voz.
Para que eles não me matassem mesmo estando mortos. Para que a minha destruição não fosse a deles, e dependesse só de mim. Para que ninguém mais tivesse que morrer ou matar.

Os meus ídolos, tive que pari-los inúmeras vezes, ensanguentando-me com suas ideias, injetando suas ideologias. Arranquei pela raiz suas dores, que se tornaram minhas.
A fim de encontrar a paz, ateei fogo às suas fotos, às minhas. Queimei tudo que não é direito, nem nunca será. Todos os poemas, palavras, livros e canções bastardos. Afoguei revoluções inteiras no meu copo, naquela tarde fria de agosto. 

Eu queria consertá-los para que as suas misérias não se alojassem dentro de mim. Queria me salvar salvando-os do mundo, e de nós mesmos.

Eu trancaria amores adocicados, fins de tarde ensolarados, beijos escondidos, toda a sorte de bestas e anjos de uma asa só. Eu cegaria pra que todos pudessem ver.

Eu faria o fim do mundo pra que ninguém mais tivesse que fazer. Eu dançaria sobre os pedaços do fim, cantando o que coube a mim, – e a mais ninguém -, cantar.

Mas eu escrevi falhas e erros no meu próprio corpo. Plantei sementes inférteis. Não deu.

Agora sou tudo que desacredito. Sou as horas que não passam, os gritos que se calam, os discursos ditos em silêncio. 

Perdi meus ídolos para encontrar minha voz. E ela definhou, deu nó.

Afoguei-me no imenso mar de mim mesma.