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Arquivo da tag: Bang!

Chuva ácida.

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Cuspi todas as palavras que me colocaram na boca. Uma a uma. Presas na garganta, enfiadas goela adentro. Uma a uma.

Uma torrente de palavras molhadas gritadas raivosas ensurdecedoras. Uma enxurrada de coisas que entalavam-se em mim, em minhas fronteiras, labirintos e quaisquer espaços – aparentemente vazios. Sem ter pra onde transbordar, tiveram que sair. E foi pela boca. Pela boca vermelha e ácida. Pela boca que xinga e beija e depois ri. Pela boca que se cala, que se fecha em resiliência, no mais profundo silêncio.

Todo palco é céu.

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amanda2

A primeira vez que tentei caminhar no ar, eu nada esperava. Nem gravidade, impacto, asas.

A primeira vez que tentei voar foi após descobrir que a vida não bastava. Que manter os pés no chão, o corpo vertical e a alma vazia não me fariam nada; não doeria, não sangraria, mas também não me faria dançar ou abraçar o mundo.

Depois, quando tentei tocar as estrelas, descobri o quanto eu era pequena. Percebi que escadas não me ajudariam, mas ser gigante também não era um bom plano. 

De tudo, fui entendendo que ser o que se é não é o bastante quando não se é nada. A inexistência me assustava porque sempre me olhava no fundo dos olhos e dizia “bom dia”‘, com ar sereno, um ar de “bem, o que é que se pode fazer afinal?!”. Eu emudecia, engolindo as minhas palavras ignorantes e humanas. Olhava pro lado, matando as minhas memórias e tentando esquecer que não existir é mais comum do que parece.

 

Mas um dia, as memórias não puderam mais morrer ou fui eu que não consegui mais matá-las?

Elas foram se acumulando, petrificando, criando camadas, casas, cômodos dentro de mim. 

Não era mais possível ignorar. Era preciso ser, e antes mesmo que qualquer conexão de neurônios e pensamentos fosse ativada, já se era. Eu era dona de uma teimosa quase existência. E fui sendo, esquecendo de esquecer…

Foi assim que subi até o ponto mais alto, de onde só se podia ver escuridão, mas de cima o medo não existe, ele não consegue chegar tão longe, tão alto; o medo tem medo de altura.

A vida não bastava, era preciso voar, dar o primeiro passo fora da terra firme, caminhar no invisível. Existir era queda livre, o salto no escuro profundo, no desconhecido. 

Jamais descobri se desde aquele primeiro passo, aprendi a voar ou se continuo em queda livre, em direção ao infinito.  

Às estrelas ou ao abismo.

Não mais.

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Um dia alguém se perguntou por quanto tempo um ser humano sangra até ficar completamente vazio.

Doar-se é sangrar. Não por si mesmo, mas pelo mundo e pelas coisas em que se acredita. 

Dia desses eu me cortei, sem perceber. Tarde demais, o sangue já ia dando adeus, dobrando a esquina e então a ficha caiu. Sempre tarde demais.

Se eu sangrava – e sangro -, o vazio crescente não me pertence. Não sou a única com as mãos manchadas de sangue. 

O vazio é inaceitável. Nem mesmo as moscas pairam sobre ele. Mas enquanto há sangue para correr, nos mantemos de pé, temos um nome, somos reais e existimos para o mundo. 

Hoje eu olhei para mim. Percebi que tenho cortes por todo o corpo, que nunca doeram. Mas agora eu sei que eles existem e que não vão parar de sangrar.

Tarde demais.

 

 

Vida diet.

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Almocei um prato de mentiras, daquelas com as gordurinhas nas bordas, mal passadas.

O tempero não era mau, mas a minha intuição – que agora dei pr’essas coisas – já vinha na contramão me dizendo que aquilo não ia prestar. Sempre fui meio apaixonada por essas porcarias; como mal passado, como cru, devoro até o que não me pertence. 

E como o pior cego é o que se nega a ver, ou nesse caso, o surdo, a ouvir, continuei. Me empanturrei com a dor e a delícia de uma boa mentira. Feita em casa, cozida a vapor, deixando resquícios no avental de bolinhas.

Tudo bem, pensei. Melhor mesmo é acreditar numa mentira real do que numa verdade inventada.

E verdade seja dita, a mentira que cabe a cada um sempre será melhor e mais saborosa do que a verdade absoluta imposta pelos cretinos da vez. Porque é assim mesmo, um cretino cai e outro já vem chegando, ainda pior do que aquele, com a verdade absoluta congelada na bandeja. A mesma que vai servir de prato às cabeças dos que amam as mentiras.

Tampem os ouvidos porque ai vem o meu sonoro foda-se: não engolirei quaisquer verdades enlatadas pois nasci no reino do irreal. Vomitarei  em vossas dietas politicamente corretas, em vossos tabus, e em vossos discursos prontos. 

Ninguém há de me enfiar goela abaixo verdades totalitárias. Porque os meus ídolos são a liberdade e a opinião.

E claro, o foda-se.

Antes de tudo.

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No início, era nada.

O nada, inexplicável. Quase intangível, que não permite especulações racionais.

O nada não se explica, não pede porquê, licença, não se questiona, não quer ser pensado. 

Ele 

apenas 

existe.

 

O caos se instala sobre o nada, pressionando-o contra as paredes da existência, implodindo e explodindo todos os momentos que se querem agora. Que se fazem agora.

O caos é real. Primitivo e presente. Sempre presente.

Não se pode apalpá-lo. O caos, que assim como o nada não pede licença, só pode ser sentido através de si mesmo. De tudo que é caótico e quente. E ferve. Só é possível senti-lo através das batidas. Do corpo, do som, da terra. Das potestades que pulsam nas origens.

Pulsam até o ápice, o momento em que todas as pulsações e delírios se chocam, em uníssono. 

Até que um grito furioso ecoe no caos, nascendo divino, e a terra apenas respire. Respirem. 

Um deus nunca nasce em silêncio. Ele molda a existência das palavras, dos sentidos, dos gritos e grunhidos vindos das entranhas. Grita e se faz ouvir com as entranhas. Pulsam entranhas e vida, que nasce crua.

Vida

        que

                nasce

                          crua.

                                         Nua.

 A vida sobre o caos.

Passam a caminhar juntos, num diálogo que parece apenas ruído. Ora grita o caos; ora grita a vida. E quando gritam juntos, o divino sempre se manifesta. É assim, desde sempre.

Os deuses não conhecem a solidão. Criam-se uns aos outros, dão vida à vida que lhe deram. Brigam, lutam, amam, odeiam, sangram, bebem, gozam. Dão vida à mortalidade que lhes saiu das entranhas mais profundas.

Criam o efêmero, que já nasce com o peso da morte nas costas. Mas que também é vivo. É carne, sangue, cerne. Osso, pelo, cabelo, fúria. E alma. Almas que se acariciam e que descobrem o mundo a cada respiro.

 

Que seja possível tocar o eterno.

 

Evoé!

Grand finale.

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Ela achava que iria doer.

E lhe surgiu assim, sem anunciação, sem grandes cerimônias, ainda que quase lhe arrancasse um pedaço. De corpo, de alma, de vida. 

Ao se deparar com o encantamento e o horror daquela dor multifacetada e tão (sur)real, sentiu-se viva. Engraçado como é preciso um pouco de morte, ou quase, para agarrar a vida e deixar que ela também se espalhe, crie raízes e ganhe terreno.

Não tendo outra alternativa, deixava-se. Não fazia caretas, não urrava. Gritava para dentro, a fim de atingir a tal dor que ia cada vez mais fundo. Mil imagens passavam-lhe à mente, sem perceber o exato momento em que as transpunha para a realidade: mãos rasgando a pele e arrancando uma espécie de tumor que já então consumia tecidos, órgãos, deixando o sangue ralo. E no segundo exato de sua retirada, um grito saído das entranhas cortaria o ar, se transformando, em seguida, em riso. Frenético e solto, escancarando um alívio que só vem com a morte. Um alívio que zomba do tempo, que zomba da própria vida.  
Ela poderia suspirar, finalmente, depois de uma vida inteira de resignações, de espirros contidos, gritos sussurrados, e toda a sorte de eufemismos que encontrava. Mais do que isso, ela transformaria aquele suspiro numa mistura de grito-riso-escárnio-gemido-choro-gozo e tudo que sempre guardara nas profundezas de seus labirintos. Não importavam as consequências, quem é que recriminaria um cadáver? Quem julgaria e condenaria um morto, um pedaço de carne sem vida?

Então, aconteceu.

 

 

This is our last goodbye…

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(para ler ouvindo: Jeff Buckley – “Last Goodbye”)

Como se esse fosse meu último toque de ternura. O último enlace.

The last goodbye.

Nós somos, ou melhor, fomos. Éramos um amontoado de silêncios e palavras não ditas. E tudo se perdeu, se esqueceu, a memória não deu conta. Ou não se quis lembrar. Agora sim, somos lembrança, fotografia antiga, escurecendo no fundo da gaveta.

Eu tentei, juro. E ainda agora, em pensamento, queria ter muitas mãos para poder te segurar e jamais te deixar cair, jamais se partir. Porque a verdade é que não sei como se faz pra juntar os pedaços, os mínimos caquinhos de tantas desilusões.

Só posso desejar que a espera seja pouca, que o tempo não deixe de passar, não esqueça de nós.

O meu tempo, presente, é feito de agoras. Então agora eu esqueço. Porque é preciso. Porque apesar de todos os movimentos incertos, tento delinear o caminho a ser descortinado, o novo. Pra continuar com os pés firmes no chão, mas não a ponto de estancar. Continuar as andanças, os pés cansados e buscar qualquer coisa fresca, com cheiro de terra molhada.

Porque é isso. No fim de todo fim existe um começo, só esperando pelo play.