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Arquivo da tag: Andanças

Todo palco é céu.

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A primeira vez que tentei caminhar no ar, eu nada esperava. Nem gravidade, impacto, asas.

A primeira vez que tentei voar foi após descobrir que a vida não bastava. Que manter os pés no chão, o corpo vertical e a alma vazia não me fariam nada; não doeria, não sangraria, mas também não me faria dançar ou abraçar o mundo.

Depois, quando tentei tocar as estrelas, descobri o quanto eu era pequena. Percebi que escadas não me ajudariam, mas ser gigante também não era um bom plano. 

De tudo, fui entendendo que ser o que se é não é o bastante quando não se é nada. A inexistência me assustava porque sempre me olhava no fundo dos olhos e dizia “bom dia”‘, com ar sereno, um ar de “bem, o que é que se pode fazer afinal?!”. Eu emudecia, engolindo as minhas palavras ignorantes e humanas. Olhava pro lado, matando as minhas memórias e tentando esquecer que não existir é mais comum do que parece.

 

Mas um dia, as memórias não puderam mais morrer ou fui eu que não consegui mais matá-las?

Elas foram se acumulando, petrificando, criando camadas, casas, cômodos dentro de mim. 

Não era mais possível ignorar. Era preciso ser, e antes mesmo que qualquer conexão de neurônios e pensamentos fosse ativada, já se era. Eu era dona de uma teimosa quase existência. E fui sendo, esquecendo de esquecer…

Foi assim que subi até o ponto mais alto, de onde só se podia ver escuridão, mas de cima o medo não existe, ele não consegue chegar tão longe, tão alto; o medo tem medo de altura.

A vida não bastava, era preciso voar, dar o primeiro passo fora da terra firme, caminhar no invisível. Existir era queda livre, o salto no escuro profundo, no desconhecido. 

Jamais descobri se desde aquele primeiro passo, aprendi a voar ou se continuo em queda livre, em direção ao infinito.  

Às estrelas ou ao abismo.

Sobrepesos

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De alguma forma, descobri que envelhecer é ganhar peso. É carregar todas as malas, sacolas, bolsas, caixas e vidas que até então eram suportadas pela quase bondade de outros seres, velhos e desgastados, que por ventura, cruzaram o nosso caminho. Como se flutuássemos, carregados pelos seres em que nos tornaremos a seguir, e de repente, o fio se partisse, a luz acendesse e os laços estivessem soltos. De sobra, apenas o baque de um corpo sozinho voltando pro chão, com correntes pra arrastar por uma vida inteira.

É perder o tempo e ganhar, com alguma sorte, bagagens que se possa transportar pelo mundo. 

Em algum ponto do caminho, descobri que envelhecer é ganhar a companhia da solidão. É mais do que soprar velinhas ou ter cabelos brancos ou usar creme anti-sinais. Uma espécie de substituição acontece quando os laços se desfazem: vão-se os que estão mais perto do fim, e em troca, ficam as bagagens e a solidão, que só poderá ser disfarçada quando chegar a hora de carregar pesos alheios.

Descobri, por fim, que tudo isso acontece no mais silencioso escuro, sem avisos prévios, pistas e cerimônias, e que não há tempo para choques ou adaptações.  É preciso andar antes que os pesos se tornem âncoras presas no fundo do abismo do tempo.

Em outras palavras

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Eu nunca quis ser fraca. Nunca fugi da briga. Nunca sangrei sem ter pedido por isso. Nunca pedi desculpas por quem eu sou, por quem serei daqui a pouco.

E nem pedirei. Não peço desculpa por ter coragem de cruzar a linha, de quebrar as portas, as cercas e as pedras do caminho.

Acredito firmemente em tudo que ainda não foi dito e que por mim, será. Nenhuma força virá me fazer calar.

Aos tropeços foi que aprendi a caminhar, levantando com a ajuda do vento batendo nas costas. Agora, companheiros de batalha, caminhamos lado a lado, peito aberto, mente serena e coração inquieto. Como já disse um eterno: quem tem alma não tem calma. E por isso canto, grito, explodo, sangro e sou tudo que não pode mais se calar.

Antes do caos, do amor, da loucura e da saudade.

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Eu não sabia que era possível renascer sem antes morrer.

Ou talvez não tenha percebido as várias coisas que em mim foram morrendo e se dissipando, dando lugar a essa vida que agora me habita e me transborda.

Vida que foi crescendo aos poucos, se enraizando por cima de antigas cicatrizes, soprando os ventos daquilo que chamamos liberdade.

Entrei dona de verdades absolutas sem valor algum e saio sem delas precisar. Saio muito mais viva, cada vez maior, sem grandes verdades mas com muitos caminhos pela frente. 

Não posso deixar de acreditar que me libertando, muitas outras pessoas se libertaram. Que deixando pra trás tanta falta de amor e hipocrisia, não tenha me tornado mais humana. 

Reaprendi a sorrir.

Aprendi a ouvir, mais do que falar. 

Descobri novas formas de olhar para o outro. De me relacionar. Descobri que somos imperfeitos e por isso mesmo, belos. 

Descobri o significado das palavras energia e força. Descobri o que é fazer parte de uma união, mais do que de um grupo. Descobri que minha alma não sabe ser pequena, não sabe se calar. Descobri novas e tantas formas de amor. 

E reaprendi a chorar. De alegria e saudade. 


Vida longa ao delírio que em mim se instalou. 

Unhas vermelhas e coração partido.

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Acabou que eu precisei crescer.

Me senti obrigada. Ou não. Não.

Foi algo consequente. Passei por tantos percalços: lágrimas, enchentes, terremotos, tanta dor concentrada e insolúvel, que cresci. De uma hora pra outra eu era uma mulher. Uma mulherzinha de unhas vermelhas e coração partido.

Fiz coisas que jamais estiveram ao meu alcance.

Tá bom, quer mesmo que eu diga?

Eu tive uma ótima escada. Tive medo de subir, a princípio, de confiar. Mas acabei subindo e chegando lá em cima, onde não me era permitido estar.

Como se você  – ou melhor – a sua ausência anunciada, a sua partida repentina, fossem a minha carta de emancipação.

Passado o primeiro susto, fui juntando as pedras do caminho, decidi construir algo real e sólido. Era a minha resposta à inquisidora, provocadora frase: tente ser mais do que palavras.

Agora estou aqui. Vivendo uma espera que é só minha, voltando a cuidar da minha velha amiga solidão. E a gente tá se fazendo bem, se pegando nas mãos, revendo conceitos, andando sempre em frente com essa falta de peso, que é boa mas também sabe doer.

Mas a minha opção agora é outra: tudo que me faça sorrir sem acordos. Sorrir agora e não precisar chorar depois. Indolor, calmo, caminhando lentamente no escuro.

Sinceridade, fique à vontade.

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Acontece que o pior aconteceu.

Ok, sem grandes dramas, não o pior mesmo, não aquele pior do mundo desabar… mas é difícil reconhecer.

A gente se acostuma com algumas visões da realidade. Com o que se quer, com os sonhos que são fáceis de ter, de se alimentar. E de repente, BANG! As coisas mudaram e o quebra-cabeça se desfez, as peças se embaralharam e a mágica, cadê?

Deixa-se que os dias cotidianos engulam tudo que sempre pareceu incomum. O que parecia distante e atraente se torna opaco e aleatório. E é assim que tudo vai se perdendo. É assim que o tempo vai consumindo e a gente vai vivendo. Sem ter mais grandes sonhos, grandes pretensões. Sem saber aonde diabos enfiou todas as prioridades que tinha. Pisamos sobre elas com o salto da rotina, em detrimento de uma vidinha simples. E vai-se esquecendo, esvaindo, secando…

É como passar de fase, só que sem grande consciência disso. Quando se percebe, já se está no último nível: não saber mais quem se é.

Agora eu te pergunto, me pergunto: vidinha simples? Ou um pouco de prioridades, um pouco de utopia, um devaneio a mais? Passar de fase ou permanecer mais um pouco nesse jogo?

 

Enquanto isso, o sol amanhece lá fora, dorme aqui dentro, e o tempo insiste em passar.

Sem céu cinzento, sem gelo por dentro.

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BANG!

A grande ficha que faltava. Despencou, estrondosamente:

Eu não imaginava tanta distância. Não pressentia um caminho tão longo. Mas também não sabia dos meus domínios.

Observo, ainda que não compreenda tudo, os passos vãos que me permito dar. Estou sozinha, mas não sou a única.

Novamente, divido o guarda-chuva com a minha própria solidão. Mas sem frio, sem céu cinzento, sem gelo por dentro. Resigno-me para aceitar que nada me pertence, talvez nem ela, companheira de tantas andanças – a solidão.

Agora ando, a passos lentos e firmes. O mundo desabando, o céu caindo.

Ou não, o mundo aberto, pedindo um sorriso, o céu anil. E eu atendo ao pedido: sorrio. Porque ainda sou a mesma, ainda chovo sorrindo, ainda sou tempestade em copo d’água. Mas ofereço o meu sorriso, implacável e agora indestrutível, fortaleza de mim mesma.