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Arquivo da categoria: Pseudo mini crônicas

12 756,2 quilômetros.

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tira amanda 3

Com os meus braços eu abraçaria até trancar a respiração.
E não derramaria mais tristezas, nem deitaria amores partidos em camas mal feitas.

Dobraria os segundos da tua existência, te fazendo eterno. Engoliria as minhas palavras escassas, afogando-as no mar da minha saliva e te daria o meu silêncio, coberto de flores. Te alimentaria apenas de sorrisos, sempre secos, sem nunca deixar que lágrimas os salgassem. Tudo seria doce e nos meus braços caberia o mundo.

Todo palco é céu.

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A primeira vez que tentei caminhar no ar, eu nada esperava. Nem gravidade, impacto, asas.

A primeira vez que tentei voar foi após descobrir que a vida não bastava. Que manter os pés no chão, o corpo vertical e a alma vazia não me fariam nada; não doeria, não sangraria, mas também não me faria dançar ou abraçar o mundo.

Depois, quando tentei tocar as estrelas, descobri o quanto eu era pequena. Percebi que escadas não me ajudariam, mas ser gigante também não era um bom plano. 

De tudo, fui entendendo que ser o que se é não é o bastante quando não se é nada. A inexistência me assustava porque sempre me olhava no fundo dos olhos e dizia “bom dia”‘, com ar sereno, um ar de “bem, o que é que se pode fazer afinal?!”. Eu emudecia, engolindo as minhas palavras ignorantes e humanas. Olhava pro lado, matando as minhas memórias e tentando esquecer que não existir é mais comum do que parece.

 

Mas um dia, as memórias não puderam mais morrer ou fui eu que não consegui mais matá-las?

Elas foram se acumulando, petrificando, criando camadas, casas, cômodos dentro de mim. 

Não era mais possível ignorar. Era preciso ser, e antes mesmo que qualquer conexão de neurônios e pensamentos fosse ativada, já se era. Eu era dona de uma teimosa quase existência. E fui sendo, esquecendo de esquecer…

Foi assim que subi até o ponto mais alto, de onde só se podia ver escuridão, mas de cima o medo não existe, ele não consegue chegar tão longe, tão alto; o medo tem medo de altura.

A vida não bastava, era preciso voar, dar o primeiro passo fora da terra firme, caminhar no invisível. Existir era queda livre, o salto no escuro profundo, no desconhecido. 

Jamais descobri se desde aquele primeiro passo, aprendi a voar ou se continuo em queda livre, em direção ao infinito.  

Às estrelas ou ao abismo.

Queda livre.

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Eu corria os dedos pelo teu corpo como um instrumento sagrado. Olhava teus olhos que piscavam como se emitissem notas musicais audíveis somente pelos meus ouvidos. Te deixava de repente, corria pra varanda sem ar, como que sabendo que coisas inflamáveis não devem ficar perto do fogo. Mas sempre voltava porque não tinha medo das faíscas e precisava de algum calor que não o meu. Depois tomava um banho gelado pra esquecer ou pra lembrar, já não sei mais. 

Eu precisava fitar teus olhos de felino pra não me esquecer da beleza que continham e das histórias que me contavam, ainda que calados. Cansados.

E de tanto cansaço era que eu fugia e sumia e não dava notícias. Porque o teu silêncio cheio de significâncias às vezes me cansava mais do que simplesmente ver TV ou ler os livros baratos que a gente comprava na padaria.

Eu ia embora achando que precisava de um tempo em outro mundo que não esse de lençóis, cigarros pelo metade e cervejas ruins. Como se o mundo de fora não fosse assim também, só que mais frio, duro e por incrível que pareça, mais surreal.

Era como se eu precisasse ser julgada, como se só existisse qualquer tipo de moralidade do lado de cá, porque eu sabia que você não era capaz de me julgar e talvez fosse verdadeiramente por isso que nunca explodimos. Ameaçávamos e nos afástavamos como que depois de um orgasmo, em que o próprio corpo não aguenta mais continuar porque acha que vai morrer ou explodir ou qualquer coisa assim. Sei lá, eu sempre gostei de imaginar que é assim, como uma fusão de todos os sentidos em um.

Como se viver entre os nossos jornais, canecas e fumaças fosse viver em queda livre e eu às vezes tinha vontade de saber como era viver enclausurada. Agora eu vivo presa em mim mesma. Presa de mim mesma e tento me decifrar e acabo me devorando e não para de doer.

Uma necessidade bruta de realidade, era isso que eu sentia, mas refutava com medo de que pisar os pés no chão fosse mais doloroso do que saltar do 17º andar. E era.  

Valsa do novo mundo novo.

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Acontece que hoje ela ouviu uma música antiga. Foi entrando meio sem pedir licença, pelos ouvidos. E começou a cantar.

E continuou a cantar. Mais alto que a música.

Impunha seu tom, e cantava, cantava… fechava os olhos devagar, quase sem notar.

E se caísse em si, perceberia que dançava, e rodopiando abandonou a sua humanidade. Agora ela era toda música, era vento, era gravidade e a falta dela, era impulso de vida que morre a cada segundo para ressurgir, maior e mais livre.

O mundo lá fora já não era o mundo de dentro e ela ouvia a música que mais ninguém podia ouvir, como se sempre tivesse sido assim e não pudesse haver quaisquer outros sons. Sons? Não, não. A verdade, além da realidade inventada que todos pensam real, é que não havia mais nada. Não havia passado para se recordar, e sequer a noção dele, não havia significados para serem compreendidos; nada para ser devorado pela razão ou calculado pelos números dos homens. Nada para ser visto com olhos humanos. Apenas música. Existindo. Pulsando. Os ruídos do vinil antigo rodando na vitrola, tornando aquele universo-música algo que não se pode descrever com meras palavras mortais.

E ela, dentro. Rodando no compasso perfeito do mundo mais real de que se tem notícia.

Os últimos.

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A impotência. Eis um dos piores sentimentos do mundo.

Destruidor, corrosivo.

 

Ela ainda fitava seus olhos vidrados e pensava no quanto gostaria de fechá-los. Ou que abertos, tivessem vida.

Ainda apertava aquelas mãos quentes, segurava aquele corpo com o seu. Sentia seu cheiro, seu perfume misturado ao odor de seu último cigarro.

Ele tinha uma aparência serena, como quem sabe que recebeu sua última visita e que agora parte para uma última viagem, sem bagagem, sem adeus.

Não parecia ter lutado, não parecia ter sofrido. Mas ela sabia que sim; lutaram lado a lado. Protegiam-se aos gritos, como se estes fossem escudos. Suavam, buscavam forças, atravessavam corpos. Ela sabia que sobreviveria e isso a atormentava.

Sabia que o tempo passaria, que as tempestades iriam embora, e que tudo tem seu fim.

Mas como o mundo podia fazer sentido com aquele homem imóvel e cada vez mais frio sob ela? Como o mundo podia seguir vivo se

 

“O mundo está sempre acabando pra alguém”?

Agora ela sabia.

 

Pensava em por quanto tempo uma vida sangra até ficar completamente vazia. Pensava no fim. Nas coisas inacabadas, na teimosia de tudo que é vivo e insiste em pulsar justo quando ela quer que o mundo parecongeledefinhemorra. E sangre com ela. E sangre com ele. Por ele.

 

 

“Não é o fim.”

Santa chuva.

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Acordou com os olhos úmidos, de fartas lágrimas.

Embaçavam sua visão, teimando em não cair.

Não sabia de onde vinham.

Talvez de seus sonhos escuros. De pesadelos esquecidos. 

Já não lhe pertenciam: eram lágrimas mundanas, e ainda humanas.

Levantou-se lentamente observando as paredes, amareladas por cigarros há muito apagados. Teve vontade de gritar, não para que alguém a ouvisse, mas para talvez lembrar da própria voz, para que se fizesse ouvir. Mais uma de tantas tentativas de salvar-se.

Não gritou.

Acendeu um cigarro. Tossiu três vezes. Por que três? Ora, é sempre 3.

Não pensava em nada. Ou pensava em nada. A chuva de seus olhos molhando o tapete, sem pedir licença. 

Até então não havia se interessado em saber porque, mas de súbito perguntou-se, por mera curiosidade “por que choro sem sentir vontade ou fazer força? Que motivos?”.

 

Viu refletida no espelho uma figura irreal, cara amassada, olheiras profundas inundadas de tanta chuva, cabelos desgrenhados, rugas cansadas. Quando foi que tornou-se o que não era? Em que esquina perdeu-se? 

 

O tempo cansou-se de tanto esperar.  

Chorava e chovia à própria morte.

Memórias suicidas.

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Sonhei com anjos de uma asa só.

A passos descompassados, tortos, mal equilibravam-se.  Donos de memória curta, tentavam a todo momento voar, já esquecidos das tantas e frustradas tentativas anteriores. Daí vinha sua beleza: tinham tantas esperanças, tanta fé num mundo melhor por serem tão efêmeros. Suas memórias eram suicidas que não suportavam o esquecimento. 

Os anjos de uma asa só não envelhecem. São sempre jovens crianças de pés sujos, pele quente e hálito morno. Carregam o frescor de uma vida inteira pela frente, de um sempre que nunca acaba e não requer passado.

São felizes, os anjos de uma asa só. Sofrem as maiores dores, as que os anjos perfeitos não aguentariam. E depois, ao enterrarem tais memórias doloridas e furiosas, que insistem em pulsar sob a terra, eles sorriem. Como se a morte não existisse ou fosse mera alucinação.

 

Um dia o dia amanheceu mais claro do que de costume. As pessoas, sempre apressadas e tão acostumadas a olhar para o chão, não podiam ver. Se olhassem para o céu, veriam que naquele dia, os anjos de uma asa só haviam aprendido a voar.

Os anjos aprenderam e não esqueceriam. Voar seria o fim das memórias suicidas. Fadadas às artimanhas do tempo, as memórias viveriam e envelheceriam com eles. Voar lhes havia dado a finitude das coisas e fazia a utopia parecer distante e infantil, trancada em um retrato preto & branco no fundo de uma gaveta qualquer. Mas não a gaveta do esquecimento. Porque eles não esqueceriam. Recordariam-se de tudo, até o fim. 

E então o mundo, em paz, compreenderia. E choveria ao cair da noite mais clara que já se viu.