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Arquivo da categoria: confissões e devaneios

Chuva ácida.

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Cuspi todas as palavras que me colocaram na boca. Uma a uma. Presas na garganta, enfiadas goela adentro. Uma a uma.

Uma torrente de palavras molhadas gritadas raivosas ensurdecedoras. Uma enxurrada de coisas que entalavam-se em mim, em minhas fronteiras, labirintos e quaisquer espaços – aparentemente vazios. Sem ter pra onde transbordar, tiveram que sair. E foi pela boca. Pela boca vermelha e ácida. Pela boca que xinga e beija e depois ri. Pela boca que se cala, que se fecha em resiliência, no mais profundo silêncio.

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Sobrepesos

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De alguma forma, descobri que envelhecer é ganhar peso. É carregar todas as malas, sacolas, bolsas, caixas e vidas que até então eram suportadas pela quase bondade de outros seres, velhos e desgastados, que por ventura, cruzaram o nosso caminho. Como se flutuássemos, carregados pelos seres em que nos tornaremos a seguir, e de repente, o fio se partisse, a luz acendesse e os laços estivessem soltos. De sobra, apenas o baque de um corpo sozinho voltando pro chão, com correntes pra arrastar por uma vida inteira.

É perder o tempo e ganhar, com alguma sorte, bagagens que se possa transportar pelo mundo. 

Em algum ponto do caminho, descobri que envelhecer é ganhar a companhia da solidão. É mais do que soprar velinhas ou ter cabelos brancos ou usar creme anti-sinais. Uma espécie de substituição acontece quando os laços se desfazem: vão-se os que estão mais perto do fim, e em troca, ficam as bagagens e a solidão, que só poderá ser disfarçada quando chegar a hora de carregar pesos alheios.

Descobri, por fim, que tudo isso acontece no mais silencioso escuro, sem avisos prévios, pistas e cerimônias, e que não há tempo para choques ou adaptações.  É preciso andar antes que os pesos se tornem âncoras presas no fundo do abismo do tempo.

“Solidão é barulho de geladeira.”

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De tudo que eu guardei.

Das coisas que esqueci.

Fui deixando pra depois, desviando.

Deixei pra depois tudo que não podia esperar.

Assim, meio enviesada na vida, fui passando os dias. Abarrotando os lençóis, amassando os papeis e sujando os cantos com pouca vida.

Com o passar do tempo, o branco decidiu ser apenas branco, sem abrir-se às outras cores. Branco. Vazio.

A janela permanece fechada, as cortinas cerradas, o sinal fechado, a porta da frente, trancada. O céu escurecido em pleno dia. Olhos, sorrisos, cabeças. Fechados. 

A casa vazia, o eco em silêncio, calado à espera de qualquer companhia. As sombras partiriam se pudessem. Nem o pó quer se deitar nesses cômodos. As goteiras se fecharam com o tempo, não há chuva que aqui queira cair. 

O barulho da geladeira só vem me visitar aos fins de semana, pra me lembrar das coisas que esqueci.

Das coisas que guardei num passado menos sépia, sem cheiro de naftalina. Das coisas que tranquei nas fotografias, nas palavras proibidas, nos sonhos que enterrei no quintal. 

Da solidão que me fugia, e agora, me acompanha.

 

*a frase que dá nome ao título é de autoria de Luiz Felipe Leprevost.

Não mais.

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Um dia alguém se perguntou por quanto tempo um ser humano sangra até ficar completamente vazio.

Doar-se é sangrar. Não por si mesmo, mas pelo mundo e pelas coisas em que se acredita. 

Dia desses eu me cortei, sem perceber. Tarde demais, o sangue já ia dando adeus, dobrando a esquina e então a ficha caiu. Sempre tarde demais.

Se eu sangrava – e sangro -, o vazio crescente não me pertence. Não sou a única com as mãos manchadas de sangue. 

O vazio é inaceitável. Nem mesmo as moscas pairam sobre ele. Mas enquanto há sangue para correr, nos mantemos de pé, temos um nome, somos reais e existimos para o mundo. 

Hoje eu olhei para mim. Percebi que tenho cortes por todo o corpo, que nunca doeram. Mas agora eu sei que eles existem e que não vão parar de sangrar.

Tarde demais.

 

 

Em outras palavras

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Eu nunca quis ser fraca. Nunca fugi da briga. Nunca sangrei sem ter pedido por isso. Nunca pedi desculpas por quem eu sou, por quem serei daqui a pouco.

E nem pedirei. Não peço desculpa por ter coragem de cruzar a linha, de quebrar as portas, as cercas e as pedras do caminho.

Acredito firmemente em tudo que ainda não foi dito e que por mim, será. Nenhuma força virá me fazer calar.

Aos tropeços foi que aprendi a caminhar, levantando com a ajuda do vento batendo nas costas. Agora, companheiros de batalha, caminhamos lado a lado, peito aberto, mente serena e coração inquieto. Como já disse um eterno: quem tem alma não tem calma. E por isso canto, grito, explodo, sangro e sou tudo que não pode mais se calar.

Ímpar.

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Tirei os óculos pra te enxergar melhor.
Mais perto.

Eu não te esperava tão cinza, tão cheio de cicatrizes que você diz que foi o tempo que fez.

Tento fazer as minhas razões transbordarem pelos olhos, ao teu encontro. Elas só sabem se perder no caminho, porque já não são minhas. 

Sempre insisto em esquecer tudo que eu queria te dizer.
Então meu discurso é o silêncio, que fala mais do que muitas e tantas poesias e vinhos e cigarros baratos.

Visto os meus argumentos mais delicados e sinceros, cheirando a guardado, esperando que sejam minha armadura nessa guerra inventada.

Sei que voltarei aos trapos. É por isso que se chama murro em ponta de faca, não é? 

Por fim, suspiro e digo “tudo bem, tudo bem”, mera repetição das únicas palavras que me recordo. Desaprendi as palavras, as ideias, as razões.

Ficou só esse coração pesado, batendo nos segundos ímpares de um compasso qualquer.

Não, hoje não.

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Eu não te adoro.

Não vai ser dessa vez que vou te acarinhar e dizer “tudo bem, vai ficar tudo bem”.

Hoje eu vou gritar até não poder mais. Até que me falte o ar. Vou gritar todas as verdades que são minhas porque as roubei, engoli, digeri. Vou denunciar tudo quanto tem me tirado noites de sono.

Há quanto tempo paramos de andar? Há quanto estancamos? Quanto falta para caminharmos para trás? 

Cascas vazias não se mantém em pé. Vazias de alma, vida e fúria.

São mudos, e assim como os mortos, invisíveis. Mas aqueles, ao contrário destes, são assim geralmente por uma infeliz escolha própria.

É a lei da vida, do mundo que vive em colapso: quem não tem voz, desaparece.

Eu não sei calar, então não me calo. Não sei aceitar a morte em forma de silêncio, as palavras que morreriam dentro de mim. Que sejam tortas, sujas, até feias, são minhas e não se calam.

E dizem sim sem esperar aval.  Porque aqui não há lugar para pouca vida.