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Queda livre.

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Eu corria os dedos pelo teu corpo como um instrumento sagrado. Olhava teus olhos que piscavam como se emitissem notas musicais audíveis somente pelos meus ouvidos. Te deixava de repente, corria pra varanda sem ar, como que sabendo que coisas inflamáveis não devem ficar perto do fogo. Mas sempre voltava porque não tinha medo das faíscas e precisava de algum calor que não o meu. Depois tomava um banho gelado pra esquecer ou pra lembrar, já não sei mais. 

Eu precisava fitar teus olhos de felino pra não me esquecer da beleza que continham e das histórias que me contavam, ainda que calados. Cansados.

E de tanto cansaço era que eu fugia e sumia e não dava notícias. Porque o teu silêncio cheio de significâncias às vezes me cansava mais do que simplesmente ver TV ou ler os livros baratos que a gente comprava na padaria.

Eu ia embora achando que precisava de um tempo em outro mundo que não esse de lençóis, cigarros pelo metade e cervejas ruins. Como se o mundo de fora não fosse assim também, só que mais frio, duro e por incrível que pareça, mais surreal.

Era como se eu precisasse ser julgada, como se só existisse qualquer tipo de moralidade do lado de cá, porque eu sabia que você não era capaz de me julgar e talvez fosse verdadeiramente por isso que nunca explodimos. Ameaçávamos e nos afástavamos como que depois de um orgasmo, em que o próprio corpo não aguenta mais continuar porque acha que vai morrer ou explodir ou qualquer coisa assim. Sei lá, eu sempre gostei de imaginar que é assim, como uma fusão de todos os sentidos em um.

Como se viver entre os nossos jornais, canecas e fumaças fosse viver em queda livre e eu às vezes tinha vontade de saber como era viver enclausurada. Agora eu vivo presa em mim mesma. Presa de mim mesma e tento me decifrar e acabo me devorando e não para de doer.

Uma necessidade bruta de realidade, era isso que eu sentia, mas refutava com medo de que pisar os pés no chão fosse mais doloroso do que saltar do 17º andar. E era.  

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Sobre Amanda

Atriz da Cia CemCulpas e escritora de meia tigela.

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  1. Sua escrita é de uma acidez fluida, com o féu e a doçura em um constante flerte… Bem interessante!

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