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De como matei o mundo

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Tive que perder meus ídolos para encontrar a minha voz.
Para que eles não me matassem mesmo estando mortos. Para que a minha destruição não fosse a deles, e dependesse só de mim. Para que ninguém mais tivesse que morrer ou matar.

Os meus ídolos, tive que pari-los inúmeras vezes, ensanguentando-me com suas ideias, injetando suas ideologias. Arranquei pela raiz suas dores, que se tornaram minhas.
A fim de encontrar a paz, ateei fogo às suas fotos, às minhas. Queimei tudo que não é direito, nem nunca será. Todos os poemas, palavras, livros e canções bastardos. Afoguei revoluções inteiras no meu copo, naquela tarde fria de agosto. 

Eu queria consertá-los para que as suas misérias não se alojassem dentro de mim. Queria me salvar salvando-os do mundo, e de nós mesmos.

Eu trancaria amores adocicados, fins de tarde ensolarados, beijos escondidos, toda a sorte de bestas e anjos de uma asa só. Eu cegaria pra que todos pudessem ver.

Eu faria o fim do mundo pra que ninguém mais tivesse que fazer. Eu dançaria sobre os pedaços do fim, cantando o que coube a mim, – e a mais ninguém -, cantar.

Mas eu escrevi falhas e erros no meu próprio corpo. Plantei sementes inférteis. Não deu.

Agora sou tudo que desacredito. Sou as horas que não passam, os gritos que se calam, os discursos ditos em silêncio. 

Perdi meus ídolos para encontrar minha voz. E ela definhou, deu nó.

Afoguei-me no imenso mar de mim mesma.

 

 

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Sobre Amanda

Atriz da Cia CemCulpas e escritora de meia tigela.

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