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Antecipando o fim.

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Fazia planos na hora do almoço, e demolia-os ao cair da noite. Talvez, numa tentativa de antecipar o fim, evitando possíveis desencontros e despedidas.

Assim, certa tarde, depois de muito olhar o céu, sentada no ponto mais alto da montanha mais alta de seu jardim, percebeu-se. Pequena e incolor, à espera de alguma interseção divina, de qualquer suspiro capaz de salvar o seu coração.

Depois, caminhou para dentro de casa, puxando grandes e pesadas sacolas, com muito esforço. 

Vagarosamente, abriu a porta, largando as sacolas por um momento, com medo de que seu conteúdo fugisse. Mais alguns metros e poderia respirar de novo.

Não colocaria etiquetas nos sacos, a fim esquecê-los, e não sentir-se tentada a abri-los, desistindo por medo do que encontrar.

Assim, largou as sacolas, uma a uma, embaixo da escada. Amontoou-as de forma a não escorregarem ou caírem com o tempo. Imaginou-as num futuro distante, soterradas pela poeira do tempo. Não sabia se tal ideia lhe fazia sorrir ou disfarçar uma lágrima no canto do olho.

Fazia tudo de forma calculada, para que não houvessem vestígios ou saudades daquilo que já fora tão importante, a ponto de mover seus passos e fazê-la dormir em paz.

Não poderia, jamais, reciclá-los. Tentava de todas as formas afastar a ideia de um dia sentir-se tentada a ressucitá-los. 

Tudo o que desejava agora, era esquecer seus rostos cobertos de rugas e seus cabelos brancos. Tão mais envelhecidos que ela, ainda sorriam, lúgubres em suas camas de plástico. Eles envelheceram, e ela embruteceu. 

Se nada adiantasse, enterraria-os por fim, na terra fofa de seu jardim de flores escassas.

Assim, com uma esperança, a última que se permitia ter, abandonava seus sonhos disformes embaixo da escada.

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Sobre Amanda

Uma atriz com um leão a rugir no peito.

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  1. inquadrado

    sempre ótimos! um dia escrevo assim que nem vc haha :D

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  2. Gustavo FM

    Sem dúvidas, o ponto alto do texto: “Tudo o que desejava agora, era esquecer seus rostos cobertos de rugas e seus cabelos brancos. Tão mais envelhecidos que ela, ainda sorriam, lúgubres em suas camas de plástico. Eles envelheceram, e ela embruteceu.”

    Responder
  3. Não vamos nos permitir abandonar nós mesmos debaixo da escada! Te amo!

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  4. Sempre bom fazer uma faxina de vez em quando!
    Seu texto super intrigante, ao mesmo tempo que aparenta ser muito humano e sincero! Gostei mesmo!

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  5. Cada eufemismo contido aqui exprime, de uma certa forma, o que muita gente sente e têm, mas que não sabe como lidar com isso. Penso que o fato de ao menos escrever sobre isso já é um passo e tanto, quando nessa vida a gente vive numa constante busca do incerto, e nós mesmo somos o que há de mais incerto por aí.

    Responder

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