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Antes do caos, do amor, da loucura e da saudade.

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Eu não sabia que era possível renascer sem antes morrer.

Ou talvez não tenha percebido as várias coisas que em mim foram morrendo e se dissipando, dando lugar a essa vida que agora me habita e me transborda.

Vida esta que foi crescendo aos poucos, se enraizando por cima de antigas cicatrizes, soprando os ventos daquilo que chamamos liberdade.

Entrei dona de verdades absolutas sem valor algum e saio sem delas precisar. Saio cada vez mais viva, cada vez maior, sem grandes verdades mas com muitos caminhos pela frente. 

Não posso deixar de acreditar que me libertando, muitas outras pessoas se libertaram. Que deixando pra trás tanta falta de amor e hipocrisia, não tenha me tornado mais humana. 

Reaprendi a sorrir.

Aprendi a ouvir, mais do que falar. 

Descobri novas formas de olhar para o outro. De me relacionar. Descobri que somos imperfeitos e por isso mesmo, belos. 

Descobri o significado das palavras energia e força. Descobri o que é fazer parte de uma união, mais do que de um grupo. Descobri que minha alma não sabe ser pequena, não sabe se calar. Descobri novas e tantas formas de amor. 

E reaprendi a chorar. De alegria e saudade. 


Vida longa ao delírio que em mim se instalou. 

Hoje.

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Tudo em seu lugar.

O tempo passando no compasso certo, do jeito que deve ser. O sol nascendo e se pondo em uníssono, em algum lugar. O real se misturando em perfeita sintonia com o irreal.

As distâncias se apartando a passos largos, transbordando saudades. 

Muros saindo do chão, rumo aos céus, libertando os limites. Fronteiras que se cruzam, conversam e se dão as mãos.

Que se encontrem, que se percam. Que a delicadeza permita-se sutil, que toda singularidade seja sensivelmente plural. Que o ímpar não mais seja solitário.

E que hoje, sejamos eternamente, hoje.

Enfim, um começo.

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Ela sorria.

 

Simples, sem grandes cerimônias.

Como criança que devora seu doce preferido. Como há muito tempo não se ousava sorrir.

Primeiro, desajeitadamente, como se estivesse prestes a cometer um crime, uma espécie de sacrilégio, do qual seria perpetuamente culpada.

Aos poucos foi deixando. Que o tempo passasse, que as luzes se apagassem, o mundo haveria de se acostumar.

Então, pela primeira vez, percebeu-se: já não carregava tantas bagagens, tanto esquecimento. Espaço não mas havia: transbordara-se. Assim, não tendo escolha, tornou-se leve. 

Sabia-se feliz e isso lhe bastava. Sem grandes afirmações e filosofias de vida, um dia acordou e era feliz, pronto. Que mal há nisso? Quem a julgaria?

Que falassem. Era inevitável, nada havia a ser feito.

Depois de tantas andanças, de tantos nós desatados, fins abruptos e inícios desavisados, lá estava ela. De volta ao começo, sorrindo.

 

Ainda.

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Caminhava cinco passos. Parava. Ouvia.

Ouvia as batidas do próprio coração. Estas, por sua vez, ao serem espreitadas, nervosamente aceleravam-se.

Então, no impulso cortado de dar mais um passo, prometia, como fazia tantas vezes. Prometia partir.

Todos os dias, como se fosse a última vez. Como se em seguida, magicamente tornasse esse o grande objetivo da sua vida. do seu dia, da sua semana.

Colocava o melhor vestido. Olhava o céu, consultava a previsão do tempo. 

E esperava, sentada nos degraus de frente para o portão, encarando a grandiosidade daquele mundo que era seu, mas ela não sabia. Ainda.

“A vida não é crua… é precipício.”

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O dia que começa com chuva lá fora e sol, passarinhos cantando aqui dentro, inverte-se. Findam-se as esperas. Cessa o frio na barriga, e com ele, qualquer sinal de um sorriso sincero. A noite chegou mais cedo, e sem companhia, deixei-a ficar.

E como eu nunca sei ser metade, nunca sei me conter e entregar só um terço: chovo por inteira. Molho as tardes vazias que esperam no quintal. Ou então, trago o sol no sorriso, abrindo os caminhos, transbordando sutilezas, cores, pequenas esperanças. 

“Mas aqui não há lugar pra pouca vida.”

Só existem copos cheios, só existe tudo que é demais. Só o que não sabe esperar e nem caber em si.  

Não há pouco que caiba em tudo que sou.

Eis.

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Eu não sei como começar o que não tem meio, fim ou começo. O que não se sabe se nasceu pra ser nunca ou sempre.
Que verdades são essas que brotam do caos? Que direito tem elas de se imporem de tal maneira, que acreditamos tanto tanto tanto nessa coisa inventada?

Em meio a tantos erros que se querem acertos, entrecruzam-se vidas, suores, olhares. Tudo pulsa.

Caldeirão de almas que se misturam para renascer todos os dias, onde tudo faz sentido pra quem a entrega não é pouca: o olho do furacão.

A loucura de Dionísio apaixonada pela quase serenidade de Apolo, sem ter medida, transborda-se em exacerbamento.

Os corpos entrelaçados indistinguíveis, só sabem amar. Sentir. É tudo efêmero,  temperado com o prazer de ser humano e a embriaguez de tudo que é divino.

Eis o caos.

Só mais uma boa dose de satyricon e muito delírio.

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“Como na noite que traz o sono, os sonhos iludem os olhos: tudo acontece.”

Enfim: o começo e o meio desembocam para dar luz a um fim que não se quer fim. Travestido de poesia, festa, orgia. Lambuzado de batom vermelho, dedicado ao prazer de tudo que é humano, etéreo e eterno. No caldeirão de sonhos, misturam-se semi-deuses e delírios, a seguir servidos em um banquete de almas divino.
Que estas almas, acompanhadas de suas carnes viris, renasçam a cada mordida, a cada banquete, a cada deleite. Ainda mais apaixonadas, loucas e febris. 

Evoé! 

Triste fim de quase memórias.

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Das memórias fiz um mingau. Quente, condensado, fervente. Irresistivelmente, não resisti: comecei a comê-lo pelas beiradas, vagarosamente, como quem pretende parar antes da colherada seguinte. E não para. 

Sem perceber, os movimentos vagarosos eram passado. Devorava avidamente o mingau que insistia em não ter fim, a ponto de engasgar e ainda assim não desistir. Persistia, e mais ele condensava-se, mais as memórias efervescentes se misturavam entre gostos antigos e aromas de outrora. 

Já não era possível distinguir as lembranças. O que era real, dos sonhos, fantasias, dos desejos que nunca chegaram a realidade. Esboços, desenhos, rascunhos para lembrar que nada durava para sempre. Dos momentos intensos, já não podia se recordar: eram apenas emaranhados de lembranças confusas quase irreais, de repente se misturando em seu sistema digestório, coisa jamais imaginada por quem quer que fosse.

E assim seria, o fim de uma história repleta de quases, que um dia pode ter existido e agora se vê triturada entre restos de fotografias, bilhetes, desenhos, palavras, pouca dor e fim. Muito fim.

Da série coisas que não fazem sentido: como o amor move o mundo.

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Aí você percebe que a vida é um amontoado de histórias de amor mal vividas, mal contadas, não consumadas, sonhadas apenas, e sem fim.

(E que é daí que saem grande músicas, grandes poesias e coração em chamas. Quase sempre aos pedaços.)

E percebe que elas – as tais histórias de amor, com H por serem tão estupidamente reais – só são assim e fazem a vida ser o que é por conta de muitos mal entendidos, atos falhos e outras pequenas coisas colocadas sob e vistas da lupa gigante de Murphy.

E por fim, se dá conta de que tais coisas acontecem porque há pessoas por trás de tudo, egos gritando, e quase ninguém se escutando. Pouca sinceridade pra muita besteira. Muito “sem querer” pra pouca força de vontade e superação.

Alguém já parou pra pensar no que pode significar superação? Come on! SUPERação? SuperAÇÃO? SUPERAÇÃO! Não é simplesmente deixar algo pra trás. É porque é preciso um grande esforço para que alguma coisa realmente aconteça!

 Tudo bem, tudo bem… se não se pode fazer revoluções ou dominar o mundo com um monte de corações partidos, que se façam músicas, filmes, bons livros, arte e (por que não?) boas pessoas.

Coração surdo.

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(Corações Surdos – Harmada)

Agora esquece tudo que eu tentei cantar
O filme terminou nessa sessão
Ninguém espera mais qualquer atriz
E não se canta mais qualquer refrão
Agora inventa uma desculpa pra mudar
E pede a Deus pra não continuar cansada
Quando alguém se despedir
Quando você se levantar amanhã
E não quiser sair
Seus olhos vão saber
Que lá fora a noite diz seu nome
Letreiros de qualquer lugar
Nas casas, luzes na TV
Seu rosto em grande angular
Iluminando uma cidade que não quer te ver cansada
Cansada.

Corações Surdos – Harmada

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